Ao início da tarde a correria ainda não era muita, mas à medida que passavam as horas os gestos começaram a acelerar. Para preparar cada um dos petiscos que são degustados pelos visitantes da Festa do Caldo de Quintandona, que começa hoje e termina domingo, há muita gente a trabalhar nas três cozinhas do evento. São quilos e quilos de batatas para descascar, carne para preparar, legumes para lavar e cortar e de cacete para fazer sopa seca.
O ex-libris é, claro, o caldo – à lavrador, verde ou de nabos – que dá nome à Festa. Quem os faz garante que não têm segredos.

Apesar do muito trabalho e da azáfama que vivem nestes três dias, os voluntários garantem que vale a pena, só pela vida que vêem a aldeia de Quintandona, em Lagares, Penafiel, ganhar.
Em cada edição são servidos entre seis a 10 mil caldos, adianta a organização.
“Esta aldeia nos últimos anos mudou muito. Está uma cidade. Há mais gente e mais movimento e está tudo mais bonito”
Por estes dias, as mãos das dezenas de voluntários que participam na preparação e confecção dos pratos servidos pelas cozinhas do evento quase nunca param. Há quem durma apenas meia dúzia de horas. O trabalho começa sempre cedo e acaba tarde.
Hoje, no arranque do evento, a azáfama da cozinha começou logo ao início da tarde. As panelas foram postas ao lume e já só param ao final da noite.
Grande parte dos voluntários na cozinha principal do evento são repetentes e muitos estão mesmo de corpo e alma na Festa, desde a edição número um (esta é a 13.ª). Cada um tem a sua tarefa bem definida numa máquina já oleada. A coordenação cabe a Jorge Antunes e a Alexandra Lourenço. “Tratamos da logística, da organização do espaço, da preparação e da distribuição entre a três cozinhas. É uma correria”, reconhecem.

Depois há os que metem a mão na massa. Neste caso, no caldo. Vitorino Rodrigues ainda se lembra que começaram com umas panelas pequenitas nem sequer comparáveis aos panelões que preenchem agora a cozinha. É voluntário desde que o evento arrancou. “No início eram muito diferentes as quantidades. Não tem nada a ver”, explica. Todos os dias da Festa são feitas entre 10 a 15 panelas de caldo. Ele trata do caldo verde, do caldo à lavrador e das papas de sarrabulho, assim como da feijoada. O motorista, de 54 anos, que já foi cozinheiro, garante que é fácil fazer caldo para tanta gente. É tudo uma questão de proporções, refere enquanto espreita as panelas onde as carnes já cozem para dar sabor ao caldo. Só no caldo verde, por exemplo, além de quilogramas e quilogramas de batatas, serão usados 30 quilogramas de couves. Vitorino Rodrigues, de Lagares, antecipa dias de muito cansaço. “Mas vale a pena sabendo o resultado. Ver isto cheio de gente é o nosso gosto”, assume.

Quem trata do caldo de nabos é Isabel Fonseca, de 81 anos. De todas as edições da Festa do Caldo, só no ano passado é que não esteve na cozinha porque teve um problema de saúde. Este ano regressou. Mora em Quintandona. “Esta aldeia nos últimos anos mudou muito. Está uma cidade. Há mais gente e mais movimento e está tudo mais bonito”, recorda. Na panela mete batatas, nabo, feijão e carnes boas, além de folha de nabiça. Depois é apurar. “Não tem segredo”, diz. Além disso, ajuda em tudo o que é preciso na cozinha. “O que vivemos aqui é sempre bonito. Assim a nossa aldeia é falada”, resume.
“São dias de muito trabalho, muita confusão, stress e às vezes até choro. Mas quem vive as coisas vive mesmo”

Numa das bancadas está a “Margarida das bifanas”. O nome já diz tudo. Margarida Coelho, de Lagares, tem 54 anos e é quem trata das bifanas do evento desde o início. Fazia em casa, para a família. Estava a tirar um curso de cozinha e foi desafiada a participar. “Dediquei-me às bifanas e passei a ser eu a fazer sempre. Todas as bifanas que aqui são servidas passam pelas minhas mãos”, conta, enquanto separa as carnes. No ano passado, foram cerca de 550 quilogramas. Truques não há. “Tem a ver com o apurar na panela. “É preciso um bom estrugido, com alho e azeite, polpa de tomate, cerveja e sal. Depois é deixar apurar”, acredita.
O trabalho é muito, assume, mas tudo se faz pela aldeia. “Gosto muito disto. A aldeia evoluiu muito e está tudo renovado”, atesta Margarida.

Por perto está Bruno Moreira, de 38 anos. Ele que é cortador de carnes – trata as facas por tu há 22 anos, comenta – empresta o seu talento ao evento como voluntário e até tira uns dias de férias para isso. Todas as carnes que por ali passam são preparadas por ele. E são muitas. “São dias de muito trabalho, muita confusão, stress e às vezes até choro. Mas quem vive as coisas vive mesmo. Há momentos stressantes, mas valem a pena”, salienta o natural de Lagares. “O feedback que recebemos das pessoas dá-nos motivação. Se as pessoas procuram é porque há um bom trabalho da nossa parte”, explica. “Saio daqui às quatro e cinco da manhã e depois estou cá outra vez cedo. Há vezes que nem se vai à cama. Isto já é uma família, a família do Caldo”, afirma o natural de Lagares.

Se há a “Margarida das Bifanas” também lá está a “Irene da Sopa Seca”. Irene Leite, de 53 anos, é responsável por este doce há mais de 10 anos. Esta tarde os fornos já estavam a aquecer e a panela estava ao lume com a calda onde ia ser molhado o pão antes de ir para as caçarolas. “É uma calda de açúcar, água, limão, canela e uma pitada de sal. Ferve e depois demolhamos o pão que vai para as caçarolas com açúcar e canela polvilhados e vai ao forno”, elenca. Por ano são cerca de 800 taças deste doce. “Gosto disto. Este ano andei mal das costas e rezei para poder vir aqui”, comenta.
A apoiá-la está Maria Brito, de 76 anos, que além de ajudar na sopa seca faz um pouco de tudo na cozinha. Esta tarde cortava os cacetes. “Eu nasci aqui em Quintandona e a gente gosta da terra. Isto está tudo mudado. Era o lugar mais pobre da freguesia”, descreve a sénior.

A cozinha faz-se de muitas mãos. A par disto existe uma equipa de voluntárias que fazem de “ajudantes de cozinha”. Cabe-lhes a preparação dos muitos ingredientes e a limpeza. “O que for preciso”, dizem. Esta tarde, dedicavam-se a tratar das muitas batatas necessárias e de outros legumes, como abóboras e couves. Há quem já participe há vários anos, como Filomena Ferreira, Fátima Rocha, Andreia Ribeiro, ou Eva Ilda, e quem venha experimentar. É o caso de Beatriz Nogueira, de 15 anos, que veio com a mãe. “Quis fazer parte da festa de outra maneira. Costumo vir cá todos os anos. Este vim preparada para trabalhar muito”, sustenta.
15 mil pessoas esperadas num certame que quer dizer não ao plástico
Até domingo, não haverá só sabores tradicionais na Aldeia de Quintandona, mas também música, teatro e artesanato. As ruas da aldeia, ainda praticamente vazias a meio desta tarde devem encher.
A organização espera receber mais de 15 mil visitantes, um volume de pessoas idêntico ao da edição anterior.
Este ano, confirma Belmiro Barbosa Pereira, há algumas novidades. “Houve uma reorganização do espaço e procuramos reduzir ao máximo o uso de plástico” – há copos de barro e alumínio e foi abolido o plástico descartável – “houve ainda melhorias no número e qualidade dos artistas e criamos um novo espaço, o Bar do Aguieiro”, refere.
A dimensão do evento é comprovada pelos números. “São mais de mil quilogramas de carne e vamos ter 3.500 litros de cerveja e 2.500 litros de vinho”, dá como exemplo. “Todos os anos são servidos seis a 10 mil caldos e o caldo à lavrador é o que mais sai”, adianta ainda.
O evento arrancou esta tarde. O bilhete para a noite de sexta-feira custa dois euros. Nos dias 14 e 15 custa 2,5 euros, mas há uma opção de entrada para três dias por seis euros.
O acesso ao parque de campismo com chuveiros de água quente e aos 20 parques de estacionamento são gratuitos.
CARTAZ 2019
Sexta-feira | 13 Set
Música Banda Musical de Lagares | Banda Musical de Rio Mau | Coletivo Foice | Comvinha Tradicional | Crivo | Sérgio Mirra | Tresmoças | Gaiteirinho, Chega na hora
Teatro Grupo de Teatro Canários de Balselhas | comoDEantes
Pelas Ruas & Workshops Gaitas Daninhas | comoDEantes
Sábado | 14 Set
Música Sebastião Antunes e Quadrilha | Habelas Hainas | Cristina de Sousa, Fado | Antromilho | Carlos Batista | Loba Galharda | Grupo de Cavaquinhos canários de | Gaiteirinho, chega na hora
Teatro Arco Iris dos Contos | Robertos | Pelotão Camaleão | Grupo Teatro GJNE Sobreira
Pelas Ruas & Wokshops Gaitas Daninhas | Robertos | comoDEantes | Postas de Bacalhau | Connect’ART | Bandalhada | Caretos de Vila Boa | Zés Pereiras de S. Julião, Recarei e Fonte Arcada
Domingo | 15 Set
Música | Grupos Folclórico de Ordins e da Galiza| Espectáculo de Comunidade | Trio de Fado | Margarida Fado | Eduardo Costa | Cantar é Viver | Batefolia | Os Burricos | Intía Mundon | Grupo de Cavaquinhos de Lagares | Ferreirinhas | Grupo Cantar é Viver
Teatro | Robertos | Amigo Pedro e a Criançada | Arco Iris dos Contos | Teatro Assombrado
Pelas Ruas & Workshops | Gaitas Daninhas | comoDEantes | Bandalhada | Conect’art | Teatro Assombrado | Caretos de Vila Boa | Pauliteiras | Zés Pereiras: S. Julião, Fonte Arcada e Recarei