A notícia que publicamos esta semana sobre a integração de vários funcionários nos quadros da Câmara Municipal de Penafiel deve merecer reflexão. Não por ser surpreendente — porque, sejamos honestos, já pouco surpreende na política autárquica — mas porque ajuda a perceber como funcionam, por vezes, os bastidores do poder local.
Licenciados que entraram como cantoneiros, auxiliares de limpeza ou assistentes operacionais, categorias criadas para tarefas exigentes, físicas e, acima de tudo, específicas, foram depois requalificados para funções técnicas, de gabinete ou até de chefia. Muitos deles nunca terão, sequer, executado as funções para as quais concorreram.
Mais curioso ainda: vários destes casos envolvem pessoas com ligações diretas ou de proximidade política ao presidente da câmara, Antonino de Sousa. Uns trabalharam com ele em cargos de nomeação. Outros foram seus apoiantes nas eleições internas do partido. Todos acabaram integrados nos quadros. E todos, sem exceção, ficaram muito acima das tarefas manuais que, no papel, vieram desempenhar.
Não cabe aqui fazer julgamentos nem levantar acusações. Mas é legítimo que se levante a questão: estão estas admissões a servir o interesse público ou a satisfazer redes de influência?
É este tipo de práticas — legais ou não — que, ao longo do tempo, corrói a confiança das pessoas na administração pública. E quando os cidadãos percebem que há quem entre pela porta da frente com esforço e mérito, e outros que entram pela porta das traseiras, guiados por quem lá está dentro, o descrédito instala-se.
Talvez fosse tempo de fechar algumas dessas portas. Ou, pelo menos, de perguntar quem tem as chaves.