O cancro continua a ser uma doença temida, que em casos extremos persiste em roubar vidas de uma forma indiscriminada, não olhando a idades, condições sociais, estratos ou credos. Para quem é confrontado com a doença, receber a notícia é sempre um choque e uma angústia com implicações pessoais, familiares, sociais e profissionais.

Esta segunda-feira, dia em que se assinalou o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, o grupo Viver Melhor, projecto que conta com  doentes oncológicos do Vale do Sousa, promoveu uma palestra intitulada “Viver com Cancro” que contou com a médica psiquiatra do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO Porto), Assunção Esteves e mobilizou vários doentes oncológicos que partilharam histórias e experiências de vida.

Durante várias horas, várias mulheres e homens debaterem ideias, preocupações e conversaram sobre como ultrapassar esta patologia, com taxas de incidências cada vez maiores, explicando como a doença lhes alterou as suas vidas assim como a forma de pensar.

Cândida Ferreira, 55 anos, doente oncológica, residente em Paredes, uma das pessoas que participou na actividade, contou que teve um cancro da mama, identificado há 13 anos,  tendo sido obrigada a extrair os dois peitos.

“Na altura detectei a doença casualmente, estava deitada e percebi que havia algo com o meu corpo que não estava bem. Fui ao meu médico de família, fui reencaminhada para fazer exames e confirmou-se o pior, o cancro da mama estava em último grau. Foi um choque”, confessou, salientando que se seguiram quatro intervenções cirúrgicas e um processo de reabilitação custoso e exigente do ponto de vista físico, mas, também, mental e psicológico, que deixou marcas e sequelas.

“O que mais me custou foi fazer os tratamentos, não que fossem dolorosos, mas porque são extremamente agressivos com sequelas profundas quer do ponto de vista mental quer físico, com alterações ao nível corporal e outras. Nesta fase, estive mal porque tive, também, tromboses”, afirmou, sustentando que apesar de todas as adversidades e obstáculos, leia-se alterações que a doença provoca, conseguiu superar esta etapa difícil da sua vida.

“Era uma pessoa bastante dinâmica, tinha um café, uma vida profissional intensa, mas a doença alterou tudo isto”

Falando dos impactos da doença, Cândida Ferreira recordou que o cancro deixou-lhe, também, marcas do ponto da sua personalidade e até da sua vida profissional.

“Era uma pessoa bastante dinâmica, tinha um café, uma vida profissional intensa, mas a doença alterou tudo isto. Tive que me readaptar e reorganizar a minha vida profissional e familiar em função das minhas limitações físicas. Havia determinadas coisas que fazia em casa e tive que deixar de as fazer”, sustentou, assegurando que também do ponto de vista profissional e da sua independência económica as alterações foram profundas.

Ao Verdadeiro Olhar, esta doente oncológica, que participa activamente nas actividades do projecto “Vida Melhor” reconheceu que este programa representou um viragem na sua vida e da sua família, permitindo-lhe voltar a reconquistar a sua vida social e a sentir ocupadas e útil.

“O projecto ‘Viver Melhor’ permitiu-me superar as dificuldades inerentes a todo este processo. Fui das primeiras a integrar o projecto e reconheço que é uma mais-valia para quem se vê confrontado com esta doença. Além da possibilidade de termos acompanhamento, somos convidadas a participar em várias actividades, fazemos ginástica, teatro e estamos a participar em ateliês de trabalhos manuais”, assumiu, sublinhando que o grupo funciona como uma terapia, contribuiu para a melhoria da qualidade de vida e faz com que as pessoas se sintam verdadeiramente integradas.

“Fazer parte do grupo fez-me perceber que existem pessoas com problemas mais graves que o meu, histórias de vidas e reabilitação bem mais complexas “

Falando do projecto “Viver Melhor”, Cândida Ferreira, realçou, também, que o projecto promove a permuta de ideias, a entreajuda, estimula a saúde mental e física dos doentes, através do apoio psicológico (sessões de grupo) e exercício físico, ajuda a reduzir a incidência do cancro e a recuperar a massa muscular, aumentando a mobilidade e a flexibilidade.

“Fazer parte do grupo fez-me perceber que existem pessoas com problemas mais graves que o meu, histórias de vidas e reabilitação bem mais complexas que superaram todos estes problemas e isso, no fundo, acabou por me dar força para prosseguir a minha vida, enfrentar as minhas fraqueza e dúvidas”, expressou, admitindo que neste processo de reabilitação a família, em especial o seu marido e a sua filha tiveram um papel decisivo.

“Conheço pessoas que não conseguem falar da doença. Fecham-se. E estes grupos ajudam-nos, dão-nos respostas aos nossos problemas e às nossas dúvidas porque estamos em contacto com pessoas que têm ou passaram por situações idênticas. Estar em casa estava-me a fazer mal e foi a própria médica que me aconselhou a sair de casa”, expressou, referindo-se, ainda, à importância do projecto e à terapia de grupo que o mesmo facilita e promove.

“Há pessoas que só notam que estamos doentes quando nos cai o cabelo, mas isto é um processo que dura a vida toda”

Sobre o cancro e a forma como a sociedade olha para a doença, Cândida Ferreira reconheceu que há ainda um estigma em relação à doença.

“Há pessoas que só notam que estamos doentes quando nos cai o cabelo, mas isto é um processo que dura a vida toda. Todo este processo deixa sequelas. Há pessoas que quando se apercebem que perdemos o cabelo, afastam-se porque acham que é algo de contagioso”, asseverou, defendendo que é fundamental continuar a falar sobre cancro, informar as pessoas sobre esta patologia, sendo estes grupos e as associações uma plataforma e veículos privilegiados para promover essa mesma informação.

“Não escondo, desatei a chorar quando a médica me disse que ia cortar meio pâncreas, meio estômago e retirar a vesícula”

António Moreira, 48 anos de idade, residente em Paredes, doente com um cancro do pâncreas assumiu, também, que ter contraído a doença fê-lo ver a vida de forma diferente.

“Foi-me detectado um cancro no dia 26 de Outubro de 2016. Sou ferroviário e num dia de calor em que estava a trabalhar descobri que tinha sangue na urina. Fiz exames. Fizeram os exames de despistagem ao fígado e detectaram que era afinal um cancro do pâncreas. Fiz três operações e depois a quimioterapia”, relatou, afirmando que quando soube que tinha cancro foi como se o mundo tivesse desabado.

“Não escondo, desatei a chorar quando a médica me disse que ia cortar meio pâncreas, meio estômago e retirar a vesícula. É uma noticia dura que não é fácil de assimilar. Nunca tinha tido qualquer problema. Era cuidadoso com a alimentação, raramente bebia bebidas alcoólicas, fazia desporto e ser confrontado com esta realidade foi bastante penoso”, declarou, acrescentando que chegou a temer pela própria vida.

“Tive dois cunhados do lado da minha mulher que também tiveram cancro no pâncreas e acabaram por falecer, pelo que quando recebi a notícia pensei que não ia sobreviver”, frisou.

“Tinha a ambição de comprar um terreno e fazer uma casa, mas tudo isso ficou para trás”

António Moreira esclareceu que com a notícia do cancro do pâncreas, tudo na sua vida mudou e os projectos que tinha tiveram que ser definitivamente interrompidos.

“Tive de refazer por completo a minha vida, os meus projectos. Tinha a ambição de comprar um terreno e fazer uma casa, mas tudo isso ficou para trás. Agora, vivo um dia de casa vez. A minha esposa foi fundamental, prestou-me toda a ajuda e apoio necessário em especial na fase em que estive em casa, e os próprios médicos e técnicos de saúde ajudaram-me a superar todas as adversidades e dúvidas que foram surgindo. Sei de casos de mulheres que abandonaram os maridos quando souberam que tinham cancro”, confessou.

António Moreira reconheceu, também, que o cancro do pâncreas provocou em si mudanças físicas e psicológicas com que se habituou a conviver.

“Fiquei com mazelas. Comendo a barriga incha-me, afectou-me a digestão. O pâncreas liberta substâncias que ajudam a fazer a absorção. O meu organismo não absorve determinados nutrientes, estou com suplementos, tenho dificuldades em arranjar alimentação no trabalho porque fiquei alérgico ao glúten. Não posso comer canja por causa da massa nem frango com massa. Tenho de ter cuidados. Opto por levar os produtos e confeccionar para mim”, avançou, acrescentando que as alterações são, também, visíveis ao nível da concentração, na memória, da fadiga, com idas sucessivas à casa de banho e ao nível da visão.

António Moreira reconheceu, também, que o projecto “Viver o Cancro” foi determinante para a sua vida. “A fase em que estive em casa, foi a pior. Apesar de todo o apoio que tive da minha esposa, sentia-me quase um inválido. Tive conhecimento do projecto acedi em participar e hoje não me arrependo. Cresci, aprendi a conhecer e a valorizar outras experiências e realidades de vida. Com este grupo tornamo-nos mosqueteiros oncológicos, isto é, um por todos e todos por um. Pensamos que o nosso problema é único, mas há sempre quem tenhas histórias que ultrapassam a nossa. Houve duas histórias que me marcaram de forma definitiva, uma de uma senhora que tinha a feito três quimioterapias  e isso deu-me mais incentivo para continuar na minha cruzada. A outra foi a história de uma outra doente oncológica que fazia as necessidades para um saco, uma realidade muito mais aguda que a minha”, atestou.

“Quando fiz a quimioterapia e vinha de comboio, o que mais me custava era saber que muita gente olhava para mim de forma diferente, de soslaio”

Apesar da doença e das mazelas que diz sentir, António Moreira regressou ao trabalho, com alguma limitações e, hoje, confessou ser uma pessoa socialmente integrada pessoal e profissionalmente. “Ando a tomar suplementos, fiquei alérgico ao gluten, isso acarretou mais despesas, os suplementos custam 100 euros mensais e obrigou-me a trabalhar, além de que tenho uma filha de 14 anos e tenho de zelar pelo seu futuro”, afiançou, reconhecendo que a informação é uma mais-valia quer para os doentes quer para os que não têm a doença.

“Quando fiz a quimioterapia e vinha de comboio, o que mais me custava era saber que muita gente olhava para mim de forma diferente, de soslaio, porque trazia uma máscara, estava mais debilitado e mais magro”, anuiu.

“cada país tem as suas particularidades, devido ao stress, pelo contrariar  dos ritmos da natureza e por tudo aquilo que isso implica, temos maior tendência em ter doença oncológica”

A médica psiquiatra do IPO do Porto, Assunção Esteves, constatou que os concelhos de Penafiel e Paredes têm taxas de incidências de cancro bastante altas, nomeadamente, nos cancros da mama, digestivo, cancro e da próstata, patologias prevalecentes nestes dois municípios.

A médica psiquiatra do IPO Porto, parafraseando Sobrinho Simões, um conhecido investigador que se tem dedicado ao estudo da doença, reconheceu que as taxas de incidência do cancro têm vindo a aumentar, referindo que um em cada dois europeus não passará sem ter uma doença oncológica.

“O cancro será cada vez mais uma doença crónica, como a diabetes. Existem tratamentos, não se vai falecer disso. Nos países desenvolvidos e em desenvolvimento devido às alterações alimentares, as alterações naturais e à parte genética, cada país tem as suas particularidades, devido ao stress, pelo contrariar  dos ritmos da natureza e por tudo aquilo que isso implica, temos maior tendência em ter doença oncológica”, afiançou.

Assunção Esteves ressalvou, também que que opções que tomamos no dia a dia são determinantes na prevenção de certas doenças, em especial do cancro, preconizando um maior equilíbrio ao nível da alimentação.

“É fundamental comer mais fruta do campo, consumir carnes magras, nada de excesso de álcool, bebidas açucaradas, corantes entre outros. Precisamos de nos mexer mais, fazer mais exercício físico diário ligeiro, sem cometer excessos. Dormir sete a oito horas. Ser o mais minimalista possível e não fazer inúmeras  coisas aos mesmo tempo. Respeitarmo-nos um pouco mais, garantindo um equilíbrio e o ritmo natural de vida”, confirmou.

A especialista atalhou, também, que é fundamental trabalhar os mais novos de forma a que possam  confrontar os pais com atitudes e comportamentos menos correctos.

“Estamos as falar de um processo moroso, mas que pode ajudar no combate à doença. A informação que pode gerar gerações mas que é fundamental implementar”, aludiu, declarando que a informação é vital e ajuda no combate à doença oncológica.

Esta actividade contou com a presença a presidente da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas( APLL), Isabel Barbosa, da vereadora da Acção Social, Beatriz Meireles e do vice-presidente da Câmara de Paredes, Francisco Leal.

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