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Ler dá liberdade. A garantia é de um grupo de reclusas do Estabelecimento Prisional Feminino de Santa Cruz do Bispo que participou num projecto ligado à leitura e às artes promovido pela Escola Secundária de Paredes.

Todos os meses, entre Janeiro e Junho, as detidas foram desafiadas a explorar um livro, escolhido por um professor do estabelecimento de ensino, que era depois debatido numa sessão de duas horas. Para ilustrar cada livro nasceu um projecto de artes plásticas, trabalhos que estão agora expostos no átrio da escola.

A inauguração da mostra aconteceu na passada sexta-feira, com algumas reclusas a descreverem a participação neste projecto como libertadora. “A leitura e a literatura abrem todas as grades, todas as prisões, todas as portas, mesmo as que vivem dentro de nós”, garantiu Margarida Andrade, docente e coordenadora do projecto na Secundária de Paredes.

“Há pessoas à solta muito mais presas do que nós. A leitura tem uma força libertadora”

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

Num local onde todos os dias são iguais qualquer fuga à rotina é agarrada como uma luz no escuro. Foi o que fizeram as reclusas do Estabelecimento Prisional Feminino de Santa Cruz do Bispo que aceitaram o desafio de participar no projecto “Conversar em torno dos livros numa prisão feminina: pela partilha e pela responsabilidade social”.

As sessões foram abertas às entre 80 a 100 alunas que frequentam a escola da prisão. As que estiveram na Escola Secundária de Paredes afirmaram, de forma unânime, que a iniciativa lhes trouxe benefícios.

“Há pessoas à solta muito mais presas do que nós. A leitura tem uma força libertadora e os livros enriquecem-nos para toda a vida”, garantiu Margarida Rodrigues. Hoje já em liberdade, a ex-reclusa foi a que mais se envolveu na elaboração dos trabalhos de artes plásticas que dão corpo à exposição. Foi ela que apresentou uma a uma as peças realizadas.

“Hoje em dia em Portugal lê-se muito pouco, dentro e fora da cadeia. As pessoas precisam destas coisas para serem estimuladas a ler. E qualquer projecto lá dentro é bom, ajuda a sair da rotina e liberta a mente, o que é muito importante”, sustentou ao Verdadeiro Olhar. Margarida Rodrigues não esconde que as aulas de música e artes “foram o escape para manter a cabeça sã”.

A ideia de liberdade persiste nos testemunhos de todas as colegas ainda detidas. “Ler faz bem. Alivia a nossa alma e dá esperança”, resumiu Filomena Leandro.

A Célia Costa, a prisão trouxe outra forma de ver o mundo, algo que encontrou nos livros. “Comecei a apaixonar-me pelos livros e pela biblioteca dentro da cadeia. Agora sou fã da biblioteca. Antes não era grande leitora”, confessa. “Ler dá muita liberdade, torna-nos completamente livres. Este projecto ajuda a pensar noutras coisas e fazer o tempo passar mais rápido”, acrescenta a reclusa que está presa há seis anos, entrou com a 4.ª classe e já completou entretanto o 11.º ano. “Aprendi a comunicar melhor com as pessoas e a olhar o mundo de outra forma”, afirma.

Presa há mais de dois anos, Elena Nuta, de nacionalidade romena, frequenta a escola para aprender português e informática. Também ela já gostava de artes e acedeu ao desafio lançado. “Ler trouxe liberdade e é uma forma de relaxar e esquecer os problemas”, garantiu.

“É importante aproveitarem o tempo de reclusão para se auto valorizarem”

O projecto que deu origem à exposição “A Arte e a Leitura vividas num Estabelecimento Prisional” nasceu do encontro de Margarida Andrade, professora de Português, com uma colega professora de Artes Visuais que já leccionava no Estabelecimento Prisional. “Como penso que a escola pode ter um papel de voluntariado e uma voz de cidadã activa e comecei a conceber um projecto e desafiei-a”, conta a docente.

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Nasceu uma ideia para três anos, que está no segundo ano de execução, que leva promotores da leitura da Escola Secundária de Paredes, todos os meses, à prisão. São professores de várias áreas distintas. “Cada promotor escolhe um livro, oferece esse livro à biblioteca do estabelecimento prisional e as reclusas podem requisitá-lo para ler nas suas celas. Depois temos duas horas de encontro com entre 30 a 50 reclusas e um debate sobre o livro para as desafiar à leitura”, referiu.

“O livro é uma libertação. Temos que lhes abrir fronteiras e proporcionar formas de expressão social onde podem expressar livremente as suas opiniões. E esse encontro é muito enriquecedor e tocante também para os promotores da leitura”, garante Margarida Andrade.

Da mesma forma a directora do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo, que conta com cerca de 340 reclusas, realça as mais-valias trazidas pelo projecto, que contou com a parceria da Santa Casa da Misericórdia do Porto.

“Há muita adesão a estes projectos de leitura. Enquanto estão a pensar nisto parece que se afastam do local onde estão, pelo menos em pensamento. E quando elas estão bem isso reflecte-se na vida quotidiana da prisão, há menos conflitos e menos stress porque elas têm mais auto controlo, auto confiança, auto-estima e vêem os problemas de outra forma”, explicou Paula Leão.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

“Elas cometeram algo de ilegal e foram condenadas em sede própria. O trabalho do estabelecimento prisional é acompanhá-las na execução da pena e dar-lhes ferramentas para que quando saiam se consigam integrar. Trabalhamos para que este projecto as ajude na reinserção social no futuro”, defendeu a directora da prisão. Como exemplo, Paula Leão deu o aumento da qualificação, com reclusas que entram com a escolaridade primária e saem com o 12.º ano ou mesmo formação superior. “É importante aproveitarem o tempo de reclusão para se auto valorizarem. Temos também muitas pessoas a trabalhar e empresas que as contratam depois de libertadas”, adianta.

A sessão terminou com uma visita guiada à exposição, uma actuação do Coro do Conservatório de Música de Paredes e um lanche convívio.