Autodidacta paredense retrata actividade agrícola e dá a conhecer raízes culturais do concelho

Joaquim Bessa, de Duas Igrejas, tem mostra patente na Loja Interactiva de Turismo

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“Mundo Rural”, assim se designa a mostra que está patente na Loja do Turismo de Paredes, da autoria de Joaquim Bessa, um paredense residente em Duas Igrejas e um apaixonado pela arte.

A exposição, a terceira do autor, retrata o mundo rural, sendo constituída por vários artefactos agrícolas. A exposição mostra a singularidade deste meio, num percurso repleto de memórias que, segundo o autor, fazem parte da consciência e da identidade cultural  do concelho.

Ao Verdadeiro Olhar, Joaquim Bessa assumiu que grande parte dos artefactos que integram este trabalho fazem parte do seu vasto espólio, retrata contrastes e singularidades e o contexto de um universo que marcou e continua a marcar um concelho que além do mobiliário, actividade predominante, continua a ser agrícola.

O autor declarou que cada objecto e artefacto remete para esse legado assim como para as suas gentes, captando e dando a ver a importância que esse mundo teve em determinado momento da história do concelho e que hoje, devido às alterações que o sector sofreu, deixou de ter a importância que tinha.

Falando da mostra, Joaquim Bessa esclareceu que a maioria das peças que integram o seu mais recente trabalho fazem parte do  seu vasto espólio que tem guardado em casa.

Aliás, o autor assume-se como um coleccionador, acumulador de artefactos agrícolas, paixão que justifica com a ligação que mantém ainda hoje ao mundo rural, o gosto em trabalhar a terra e dedicar-se às actividades agrícolas, tendo na sua habitação um atelier que usa para pensar os seus trabalhos, trabalhar as peças e elaborar as suas mostras.

Conjugado com a paixão que devota à actividade agrícola, Joaquim Bessa afirmou ser também um interessado por tudo o que seja restauro, herdando do seu pai, que foi marceneiro, o gosto pelo móveis, tendo trabalhado como polidor. A sua segunda mostra remete, aliás, para o universo do restauro de móveis.

“Esta é a minha terceira mostra, a primeira foi feita à base de peças em chapa, a segunda de cómodas antigas e este é sobre diversos artefactos etnográficos. Sou um autodidacta, tenho interesse por tudo o que é arte, defino-me como um acumulador e coleccionador e também um apaixonado pelo restauro. Algumas das peças fui adquirindo, à excepção de um semeador que me foi cedido por um amigo. Tudo o resto faz parte do meu espólio. Algumas peças adquiri por herança, outras foram dadas como é o caso de uma balança que integra esta mostra”, disse, salientado ter um gosto por coisas antigas e cada peça tem um valor único, uma história por detrás e uma singularidade própria.

Ao Verdadeiro Olhar, Joaquim Bessa concretizou, que esta esta exposição foi pensada, também, para recriar o ciclo do pão.

“Queria, também, retratar o ciclo do pão. Tinha os materiais todos, a linhagem toda completa e isso acabou por me dar ideias para fazer esta mostra e retratar esse ciclo, as tradições subjacentes a esta actividade que encerra em si todo um saber e fazer acumulado”, sustentou, admitindo que é um paredense de gema que se revê no mundo rural, nos seus usos e costumes do concelho.

“É fundamental que este legado seja preservado, seja do conhecimento do público mais jovem, pois trata-se de um legado, de um acervo valioso que faz parte da história do território e das memórias do concelho”

Falando ainda das peças que compõem esta mostra, Joaquim Bessa destacou que a exposição é constituída por um limpador, as rasas, medida para medir o milho, a balança, a maceira, os alguidares, as cestas e outros artefactos ligados à cozedura do pão.

“Estamos a falar de peças únicas que fazem parte da identidade do concelho que foram previamente tratadas, limpas e que representam pedaços da história de um mundo e modos ancestrais de produzir o pão ”, constatou, avançando que gostaria que a mostra fosse visualizada pelos alunos das escolas do concelho.

“É fundamental que este legado seja preservado, seja do conhecimento do público mais jovem, pois trata-se de um legado, de um acervo valioso que faz parte da história do território e das memórias do concelho”, constatou,  elogiando o trabalho  da Loja do Turismo de Paredes e da Câmara de Paredes na preservação desse mesmo legado e espólio.

“Sei que a autarquia já encetou contactos com os estabelecimentos de ensino nesse sentido, fez vários convites, às escolas para visitarem in loco estes artefactos que fazem parte da nossa cultura”, declarou, assumindo que como qualquer apaixonado pelos usos e costumes o seu trabalho não tem outra finalidade que não seja a de divulgar e expor o que é verdadeiramente singular.

“É evidente que isto só faz sentido se poder ser usufruído pela comunidade. Nenhum artista vive só para si. Sendo esta uma mostra sobre o mundo rural, uma parte da consciência colectiva e da identidade cultural, faz todo o sentido que possa ser partilhada por todos”, confirmou, acrescentando que os seus trabalhos não têm como objectivo o lucro.

“O meu objectivo não é o de vender as peças. Sei que há pessoas que apreciam o meu trabalho. Quero mostrar os meus processos, o que é que se pode fazer do nada. É isso que me interessa”, concretizou, reconhecendo que a sua esposa tem sido uma ajuda inestimável, no apoio  até participando activamente nas exposições.

“O meu marido é um sonhador. Sei que vivemos numa sociedade extremamente consumista pelo que não é fácil abraçar este tipo de causas e incutir estes valores aos jovens, coisa que procura fazer nas minhas aulas”

Antónia Bessa, esposa de Joaquim Bessa, docente na Escola Secundária de Paredes, revelou que o marido é um sonhador e um apaixonado pela arte, com vontade de aprender e uma pessoa que se interessa pelas raízes e identidade cultural do concelho.

“O meu marido é um sonhador. Sei que vivemos numa sociedade extremamente consumista pelo que não é fácil abraçar este tipo de causas e incutir estes valores aos jovens, coisa que procura fazer nas minhas aulas,  isto é, sensibilizar os meus alunos para a necessidade de salvaguardar e zelar pelos valores que nos identificam enquanto comunidade e o mundo rural é um desses valores”, constatou, recordando que cada uma das peças tem uma história que lhe está associada a remete para um universo, que neste caso, é o mundo rural.

“Vivo intensamente tudo isto. O mundo rural é a simplicidade, partilha e alegria. Quando participava numa desfolhada era uma alegria. A minha avó fazia fornadas de pão, tinha uma alegria incrível. Muito deste espólio fazem parta da minha identidade. Tanto eu como o meu marido fomos marcados por estas influências. Temos terrenos em casa, temos galinhas, fazemos o vinho, mantemos a tradição. Estamos ligados à enxada, ao ancinho à carrela, à maceira e ao apanhador”, esclareceu, confirmando que todas as peças têm uma alma, que urge lembrar, desfrutar e preservar.

Antónia Bessa recordou, também, que cada  peça desta mostra remete para a identidade do mundo rural, desde o limpador de milho, o crivo, a peneira, o semeador de cereais.

“Vivi muitos anos com os meus avós, participei nas actividades e tarefas agrícolas, fazíamos as desfolhadas, as vindimas, recordo-me da minha avó colocar a broa num safado numa toalha de linho, entregava rebuçados aos miúdos que apanhavam os bagos do chão. Havia o espírito de comunidade e uma partilha de actividades, comungávamos todos dos mesmos ideais. Verifico que muitos jovens hoje estão muito virados para dentro, para os gadgets, os telemóveis e a comunicação fazia-se, na minha altura, também através do trabalho. O dar sem esperar nada em troca. Alguns destes artefactos fazem-me lembrar esse tempo” asseverou.

A vereadora da cultura da Câmara de Paredes, Beatriz Meireles, destacou a mportância desta mostra para a etnografia local.

“Algumas destas peças fazem parte das minhas memórias, recordo-me de ver algumas em casa do meu avô. Estamos a falar de um legado único,  que a maioria dos jovens não tem conhecimento, mas que fazem parte das nossas raízes culturais”, afirmou, sublinhando que a câmara municipal tem sido a primeira interessada em proteger esse legado, preservar a história e o património do território.

A autarca destacou, também, que o executivo está apostado em sensibilizar os mais jovens divulgar os usos e costumes e honrar a história do concelho e a sua consciência colectiva.

A este propósito, Beatriz Meireles relevou, ainda, o trabalho da Loja do Turismo de Paredes que em articulação com o seu pelouro tem realizado um trabalho de divulgação da oferta turística no concelho e realizando mostras e outras actividades com o objectivo de preservar a história e manter viva a memória do território.

Fernanda Pereira, responsável pela Loja de Turismo de Paredes, defendeu que a loja além de ser um veículo informativo tem funcionado como um veículo de conhecimento para as gerações mais novas.

“O concelho de Paredes é conhecido pela indústria do mobiliário, mas o mundo rural esteve sempre presente quer a sul quer a norte. O processo agrícola era feito com instrumentos que marcam esta mostra que representa esse processo de trabalhar no campo, com meios que hoje já não se utilizam porque também houve uma evolução nesse sentido. Os artefactos que integram esta exposição fazem parte das nossas tradições e da nossa história e da etnografia do concelho. Pretendemos não deixar morrer estas tradições. Hoje, como disse, há novos mecanismos, mas tudo teve uma origem e estes artefactos fazem parte dessas memórias”, confessou, reconhecendo que a Loja do Turismo é cada vez mais um espaço de referência na cidade e no concelho visitado por vários actores e agentes culturais do concelho e não só.

“Quando criamos estas actividades e o serviço educativo foi com esse objectivo, de dar a conhecer a loja, criar novas dinâmicas e darmos a conhecer este espaço à comunidade. Estamos a falar de um trabalho gradual, mas os resultados são bastantes positivos. Queremos manter essa dinâmica, este ano fazemos seis anos e pretendemos continuar a trabalhar em prol da comunidade, criar atractivos e possibilidades das pessoas nos querem visitar. Não nos compete apenas prestar informação turísticas. Este espaço deve ser aproveitado para outros fins, pode dar a oportunidade a artistas locais exporem, um espaço para os mais pequenos fazerem coisas que não sabem fazer e fazemos isso com o serviço educativo nomeadamente nas interrupções lectivas”, declarou.

A mostra “Mundo Rural” está patente até 7 de Fevereiro.

 

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Jornalista