Dizem que a fé move montanhas e, em Aparecida (Torno, Lousada), essa é realmente uma das motivações para mais de uma centena de homens que levantam aquele que é considerado o maior andor do mundo, pelo Livro de Recordes do Guinness. É em Agosto que milhares de pessoas rumam ao local para ver a procissão com esse andor e uns quantos mais pequenos, enfeitados e construídos por gente da terra.

São cerca de 22,50 metros de altura e à volta de uma tonelada e meia de peso. As estruturas são feitas em madeira, que é depois adornada com tecidos e outros apliques, conforme o gosto do armador daquele ano, e a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que dá nome à romaria com 196 anos e também ao local, vai pousada em cima, quase no final de uma das estruturas.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

É preciso muita força e algum jeito para levar o andor, mas há quem diga que não há segredo nenhum. Carlos Massas é o armador deste ano, ou seja, quem decora o andor e vai liderar os 110 homens já inscritos. “O Carlos diz 1, 2, 3. Quando disser três, é para levantar lentamente, mas orientar cento e tal pessoas é muito complicado. Há anos que levanta que é uma maravilha, mas outros nem tanto”, conta Armando Teixeira, carpinteiro que elaborou as estruturas do andor actual.

Assim que estão a postos, partem da Ermida de Nossa Senhora Aparecida e começam a caminhar lentamente, com algumas paragens pelo meio, percorrendo uma distância de cerca de um quilómetro e meio e demorando quase duas horas até voltar ao mesmo local. Mas nas paragens o andor nunca vai ao chão, permanece sempre em cima dos ombros e é nessa região que, dizem os mais experientes, onde deve ser feito o esforço.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

“O que preocupa não é levantar ou descer, é ir com ele. Já agarro no andor há muitos anos e sei que temos alturas que não pegamos nada e outras em que pegamos cento e tal quilos nas costas. Há alturas em que digo que não aguento mais”, refere Tiago Vale, que é dos mais antigos a ajudar a levar o andor – há 35 anos.

Conta que nasceu numa freguesia ao lado há 54 anos, mas sempre passou muito tempo em Aparecida, para onde acabou por ir viver já há mais de vinte anos. Começou a ajudar a levar o andor por incentivo do pai e, desde então, nunca mais faltou e até já tem substituto para quando não puder mais, um sobrinho. Houve um ano que até chamou uma das filhas para ajudar, mas acabou por não ser preciso porque estava mau tempo e a procissão não saiu. “O meu sobrinho vai no meu lugar, mas eu ainda aguento mais uns anos”, exclama.

Foto: Tiago Vale, António Cunha e Ernesto Teixeira| Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

António Cunha e Ernesto Teixeira também já são “da casa”. Há 32 anos que ajudam a levantar o andor para cumprir uma promessa.

No caso de António Cunha, de 52 anos e natural de Aparecida, foi por causa da carta de condução. “Desde aí foi sempre e enquanto puder, continuo a pegar no andor. Ajudou-me e eu tenho que contribuir com essas coisas. E temos que ir sempre chamando uma pessoa para vir fazendo as nossas tradições”, conta, revelando que também o seu filho, de 27 anos, faz parte da centena de homens que leva o andor, há já cinco anos.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Ernesto Teixeira é da Lixa e veio viver para esta vila desde que casou. Tem 55 anos e acabou por começar a ajudar a levar o andor porque não havia pessoas que chegasse naquele ano e, a partir daí, prometeu que o faria sempre, enquanto pudesse. “Quem promete tem que ir e é um grande sacrifício que a gente passa. É muito pesado e é muito tempo em cima das costas”, confessa, mas diz que é Nossa Senhora que lhe dá força no dia. O filho, com 30 anos, acabou por seguir o mesmo caminho e há três que também ajuda e é inclusive membro da comissão de festas.

“A partir de agora é para os novos”, diz Ernesto Teixeira. Acreditam que a devoção dos mais novos é a mesma e que está garantido o continuar da tradição depois que deixem de conseguir ajudar. “Mas os moços novos não agarram como nós”, garante, contudo, Tiago Vale.

Quanto às esposas, dizem que “participam a dar apoio moral e a esfregar creme nos ombros”, brinca Ernesto Teixeira.

Na parte final do percurso, Armando Teixeira conta que, normalmente, vêm mais depressa. Confessam que é pelo ânimo da música, que vai atrás deles, e das pessoas. “Dá-nos muita força isso… A música a tocar, o pessoal todo a gritar, a bater palmas”, descreve Tiago Vale.

 

Estrutura mantém-se há mais de dez anos, mas a decoração muda anualmente

Por detrás de tanta dimensão que compõe o andor está muito trabalho. As estruturas mais recentes foram feitas por Armando Teixeira há cerca de 14 anos, a convite do padre José Augusto Ferreira, com o objectivo de aumentar a altura.

Demorou cerca de um mês e meio a ser feito e o carpinteiro de 58 anos revela que foi “por amor à terra”. “É um orgulho enorme. Quem é que não tem orgulho em fazer uma peça destas? É uma terrinha que toda a gente quer vir para aqui. Nos arredores não há festa como em Aparecida”, sublinha.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Também o filho, quando regressa a Portugal, ajuda, ou a levar o andor, ou noutra coisa que seja precisa.

Foi nessa mesma ocasião em que o comprimento do andor foi aumentado, que o padre decidiu fazer a inscrição no Livro de Recordes do Guinness. “Foi uma decisão normal depois das coisas terem acontecido com essa simplicidade e essa natureza de quem acreditava que era possível. Foi só mesmo passar para o papel aquilo que já era evidente”, explica.

“É a alma desta gente, o centro da vida das pessoas, não pela romaria em si, mas pela devoção a Nossa Senhora. A fé e a devoção são o centro disto tudo”, acrescenta.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Já a parte da decoração coube, este ano, a Carlos Massas, que alterna (ano sim, ano não) com outro armador. Nasceu em França, mas veio muito novo para uma freguesia vizinha, onde morou durante 20 anos, acabando depois por vir para Aparecida. Tem 52 anos e desde os 16 que começou a trabalhar com um tio, aprendeu, começou também a armar e, hoje em dia, é “o responsável máximo pela armação do andor” no seu ano.

Aqui, a imaginação é um dos elementos-chave. Geralmente, nunca fugindo dos tons rosa, azul, branco e amarelo – que compõem a imagem de Nossa Senhora Aparecida -, vai pensando em materiais e formas de colocar as peças no andor ao seu gosto.

Foto: Ana Regina Ramos/Verdadeiro Olhar

Usa vários tecidos e muitos adornos num trabalho feito ao pormenor. Tem a ajuda de algumas mulheres da terra para que o tecido fique como pretende e depois aplica, juntamente com um cunhado, o filho e um empregado, cerca de 15 dias antes das celebrações.

Além deste andor, que pertence à freguesia, Carlos Massas elaborou outros dois que também vão na procissão, mas que são dele.

“É a nossa santinha, a Nossa Senhora Aparecida. É o bairrismo e eu gosto muito desta festa, adoro a imagem, a freguesia. É o meu mundo”, revela.