De passadas decididas e rumo bem traçado, centenas de peregrinos partiram, ontem e hoje, de Paredes, tendo como destino o Santuário de Fátima.

A organização da Obra de Caridade ao Doente e ao Paralítico (OCDP Paredes) já tem a máquina bem oleada, ou não fosse este o 47.º ano em que realizam uma peregrinação. São mais de 90 os voluntários que apoiam os 410 peregrinos que vão este ano. E uma logística que envolve a preparação de mais de 1.500 refeições diárias.

Esta manhã, depois de uma missa na Igreja de Paredes, os peregrinos não hesitaram e puseram-se em marcha, sem pensar nas dores e nas bolhas típicas dos mais de 200 quilómetros que vão percorrer até dia 11 de Maio.

À frente do grupo da OCDP segue Emanuel Silva, peregrino há 15 anos, que carrega a cruz. Atrás vai Armando Neves, ao mesmo tempo peregrino e voluntário que, sendo socorrista, apoia e dá alento a quem pensa em desistir e tem uma missão: “não deixar ninguém para trás”.

Há quem faça esta peregrinação há mais de 30 anos.

“Estou na Bélgica e venho aqui só para ir de propósito a Fátima a pé”

“A minha mãe teve um problema de saúde e prometi à Nossa Senhora que se ela lhe pudesse valer enquanto eu pudesse ia ao Altar do Mundo. Estou na Bélgica e venho aqui só para ir de propósito a Fátima a pé”, descreve Armando Fonseca, de Amarante.

Tem 51 anos e faz esta peregrinação há 30. “Isto é uma família que temos aqui pelo caminho”, garante.

No percurso “chora-se muito, ri-se, temos quebras nas pernas, fazemos bolhas nos pés”, conta, explicando que só não foi no ano passado porque estava internado no hospital.

“A fé não tem explicação. Uma pessoa chega lá e respira-se um ar tão puro. É inexplicável”, assume Armando Fonseca.

Vai integrado no grupo da OCDP Paredes. À medida que saem da Igreja de Paredes, os peregrinos vão se espalhando pela berma da estrada nacional, em pequenos grupos, uns caminhando mais rápido, outros mais devagar.

Mas há dois elementos que não mudam: Emanuel Silva e Armando Neves.

Emanuel Silva, de 45 anos, segue há frente. Há 15 anos que participa na peregrinação a Fátima e, há cinco, carrega a cruz. “Fiz uma promessa e enquanto puder lá ir estou sempre disposto a arrancar para acompanhar a cruz até Fátima”, diz o homem de Penafiel. “É uma grande responsabilidade”, assume. Pelo caminho, há choro e rezas, mas também convívio e amizade. “Ir num grupo organizado torna as coisas mais fáceis para os peregrinos. É um apoio muito grande que nos dão”, refere.

No extremo oposto vai Armando Neves. O socorrista de 47 anos, natural de Lordelo (Paredes) mas a morar em Frazão (Paços de Ferreira), fica na cauda do grupo e tem como objectivo não deixar ninguém para trás. “Este ano é o oitavo ano que faço esta peregrinação. Comecei com uma promessa no primeiro ano e, como faço atletismo e caminhar não era problema, decidi fazer este serviço. Também sou socorrista da Cruz vermelha e é uma forma de poder ajudar as pessoas e dar-lhes um bocado mais de força e ânimo”, explica.

“Há pessoas que pelo caminho desanimam e pensam em desistir. É uma maneira de incentivá-las e é muito gratificante. Quando se chega a duas a três etapas do fim as pessoas perdem mesmo as forças e desanimam. Sentam-se e deitam-se no chão e dizem que não vão mais, que não conseguem e a gente fala com elas e tenta ouvi-las. Desabafam um bocadinho e parece que ganham mais força. Já vi peregrinos com os pés todos arrebentados que parece que têm uma luz e ganham ânimo e chegam lá até melhor que os outros”, resume Armando Neves.

Foi ele o último a partir esta manhã. “Existem postos de enfermagem de dois em dois quilómetros e eu sou um ponto de referência. Quando eu passar sabem que não há mais ninguém para trás”, sustenta.

“Não estamos aqui para bater recordes, mas para tentar servir o melhor que possamos os peregrinos”

António Pinto, presidente da OCDP Paredes, lembra que “há cerca de quatro a cinco anos há mais peregrinos e a logística tem aumentado”.

Este ano, são 410 peregrinos, menos 20 que no ano passado. Não porque não houvesse mais interessados, mas porque a instituição prefere limitar o número de participantes que apoia. “Temos que dar um mínimo de condições e há pavilhões que não oferecem e essas condições. Não estamos aqui para bater recordes, mas para tentar servir o melhor que possamos os peregrinos”, frisa.

Há mais de 90 voluntários, divididos por equipas que tratam da enfermagem, cozinha e cargas e descargas, entre outros serviços. A segurança é a preocupação maior. “Queremos a segurança e o bem-estar de toda a gente. Pedimos que sigam o itinerário e não passem à frente da cruz. Há um responsável pelos primeiros e um responsável pelos últimos. O último é para que não fique ninguém para trás”, confirma.

São confecionadas mais de 1.500 refeições por dia, fora os lanches entregues aos peregrinos. José Luís Freire sabe bem o que envolve essa logística. Tem 43 anos e é de Lousada. Há 10 anos que faz a peregrinação como voluntário na cozinha. Numa máquina com cerca de 30 pessoas em que cada um já sabe o que fazer até parece fácil que tudo corra bem.

“Preparamos tudo atempadamente. Costumo dizer que fazemos dois casamentos por dia, um ao almoço e outro ao jantar. São cerca de 500 as refeições que temos que preparar para os peregrinos e para os voluntários e fazemo-lo para o almoço e jantar e pequeno-almoço, além de prepararmos os lanches para levarem pelo caminho”, explica, dando um exemplo.

“Um dia em que a refeição seja arroz de feijão com costeleta grelhada, estamos a falar de, em média, duas costeletas grelhadas para cada peregrino, cerca de 20 quilos de arroz, mais cinco quilos de feijão, mais 10 quilos de hortaliça e muitas batatas para a sopa”, diz.

Para os voluntários o dia acaba por começar mais cedo e terminar mais tarde que o dos próprios peregrinos. “A nossa jornada começa cerca de uma hora e meia antes dos peregrinos, porque temos que preparar o pequeno-almoço. Depois de servir desmontamos a cozinha, carregamos tudo nos carros de apoio e partimos para o local onde vamos servir o almoço. Aí montamos novamente a cozinha, com fogões e panelas e tudo, e iniciamos a confecção das refeições. Por volta das 15h00 acabamos, desmontamos novamente, metemos nos camiões e partimos para os pavilhões onde vamos pernoitar e tudo se repete. Acabamos de servir o jantar por volta das 21h00. Entre lavar louças e arrumar tudo, vamos descansar entre as 23h00 ou 24h00. É mais ou menos esse o nosso dia de trabalho”, descreve o voluntário.

Nos últimos dois dias, apoiados por três instituições de Paredes – a Associação Nossa Senhora dos Remédios – Obra de Bem Fazer, a Obra de Caridade ao Doente e ao Paralítico de Paredes e pelo Rancho Regional de Paredes, partiram rumo a Fátima centenas de peregrinos.