Comecemos pelo óbvio: já tem nome.

Chama-se Megalómano e é a obra que cinco autarcas socialistas desenharam num qualquer guardanapo, enquanto se refastelavam num jantar a discutir como recolocar o mapa do Vale do Sousa no radar de um Governo que há muito esqueceu uma das zonas mais pobres do nosso país: o nosso querido Vale do Sousa.

Iniciemos então esta nossa reflexão, caro leitor, primeiro com uma análise sobre o atual estado da nossa ferrovia e depois, perante tais números e factos, sejamos honestos intelectualmente na crítica à forma leviana com que estes autarcas iludiram uma região e um povo.

O número é assustador, mas precisamos de começar por ele: quase 60% da ferrovia nacional está classificada num relatório da Infra-Estruturas de Portugal como “medíocre” ou “má”, ou seja, mais de metade das linhas ferroviárias do nosso país encontram-se num estado de insegurança horrendo e que definitivamente não servem os interesses dos portugueses, bem como as exigências que uma economia aberta e global impõe.

Somado a isto, devemos pensar que nos últimos 4 anos e com um inacreditável decréscimo na oferta de horários disponíveis, como também na eliminação de linhas ferroviárias, assistimos a mais de 20 descarrilamentos de comboios. Por sorte, palavra mestre neste artigo e nas Infra-Estruturas de Portugal, não tivemos nenhuma tragédia semelhante aquela que atormentou a gentes de Pedrógão Grande: semelhante no terror, mas exponencialmente pior na perda de vidas humanas.

Durante o verão as notícias “positivas” sobre a nossa ferrovia abundaram nos meios de comunicação social: comboios suprimidos diariamente pelas constantes avarias e falta de manutenção, bem como pela necessidade de responder a desafios momentâneos de festas partidárias num qualquer concelho socialista. Ares condicionados, de comboios recentemente remodelados, que não conseguiam responder às elevadas temperaturas que se faziam sentir. E bem recentemente, assistimos ao momento mais paradigmático e que reflete, na sua plenitude, o estado real da ferrovia nacional: a perda de um motor por um comboio que fazia a ligação Porto – Valença.

Fosse um governo do PSD e talvez este país tivesse a coragem de parar e contestar o estado a que os comboios e a linha ferroviária chegaram.

Mas, caro leitor, se quer um exemplo ainda mais concreto e que realmente seja de fácil ligação consigo e com a nossa terra, olhemos para a linha do Douro: como é possível que um País de primeiro mundo e onde o seu primeiro ministro prega em jornais, congressos e televisões a sua boa vontade em potenciar o interior do país, a linha do Douro não esteja na sua plenitude eletrificada? Devo relembrar-lhe que esta nossa linha, a linha do Douro, simultaneamente serve dois mundos distintos. Um mundo em que temos comboios modernos e com uma elevada disponibilidade e outro onde fazer uma viagem de pouco mais de 100 km’s demora mais de 4 horas!

Sim, leu bem caro leitor.

Se tentar fazer uma viagem entre o Pocinho e São Bento, necessita de 4 horas e 38 minutos, mais precisamente, para chegar ao destino. E pelo meio ainda consegue usufruir de uma pequena troca entre comboio e autocarro. Uma viagem inesquecível e com a certeza que existem portugueses de primeira e portugueses de segunda!

Perante isto, caro leitor, alguns iluminados sentados a uma mesa, e fartos com toda a certeza, sonharam e idealizaram um projeto único para a nossa região.

Só em Paredes, paragens em Gandra, Rebordosa e Lordelo, e para o resto da região pelo menos outras tantas, entre apeadeiros e estações. Um projeto assumidamente potencializador para a economia, para a mobilidade e para o turismo da região.

Em Paredes, o projeto foi anunciado pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal que o considerou “importantíssimo para Paredes”. Quanto a valores de investimento, falamos de números perto dos 300 milhões, divididos equitativamente, e que segundo o Sr. Presidente da Câmara “são perfeitamente exequíveis para as finanças da autarquia”.

Se me permite, caro leitor, “Mau Maria que aqui há rato”.

Então, uma Câmara com uma dívida de mais de 100 milhões e uma “má herança” herdada pelo atual executivo permite um investimento numa linha de comboio?

Após esta afirmação, Sr. Presidente, escolha uma destas opções: Ou não existe “Má Herança” e mentiu-nos, ou então, iludiu o seu povo e o seu eleitorado com uma proposta que não é exequível em termos autárquicos!

Deixo para a sua Juventude Partidária a escolha do melhor cognome para si. Deixo uma sugestão: Ilusionista.

Mas, e talvez com o êxtase do momento, o concelho de Paredes foi promotor de uma conferência para discutir o projeto, convidando o Secretário de Estado a estar presente. Na sua intervenção anunciou, com pompa e circunstância, que a linha ferroviária do Vale do Sousa iria ser contemplada no Plano Nacional de Investimentos 2030… como um estudo!

Esplêndido Sr. Presidente!

Depois deste momento glorioso, os amigos de partido começaram a disparar elogios contra o chefe: uns chamaram-lhe de visionário e outros um autarca sem igual.

No mínimo foi irónico, pois relembro que são os mesmos que no passado chamaram ilusionista ao presidente que apenas queria ser potencializador de sinergias, entre uma das regiões mais pobres do país e a tecnologia, e que ao invés de esperar pelo paternalismo estatal e consequentemente pelos nossos impostos, incluía empresas como a Microsoft ou a Siemens na sua ilusão.

Em outros tempos, quem pensou diferente e ousado foi apelidado de ilusionista. Hoje um segundo comboio e três novas estações de comboio no concelho é descrito como visionário. Coerência, portanto.

Talvez a seguir possamos discutir um aeroporto. No final, vamos a ver e só mesmo os aviões para resolver os problemas de mobilidade que afetam a região.

Já agora Sr. Presidente, se me permite, deixo uma pequena sugestão:  que tal na comunidade intermunicipal criarmos uma empresa de transportes públicos, transversal à região e que, sem megalomanias, sirva os verdadeiros interesses da nossa população?
Eu sei, Sr. Presidente.

São coisas de um jovem político, modesto e sem visão aos olhos dos seus amigos de partido, mas que no final do dia, com toda a certeza, resolviam mais rápido e melhor os interesses da nossa gente.

Até à próxima!