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O Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS) já é o que tem a mais baixa taxa de amputações do pé diabético a nível nacional. Ainda assim, para prestar ainda um melhor serviço aos utentes, abriu, esta sexta-feira, no Hospital Padre Américo, em Penafiel, a primeira Clínica do Pé Diabético em ambiente hospitalar integrada no Serviço Nacional de Saúde.

O pé diabético afecta mais de um milhão de portugueses e estima-se que 65 mil pessoas das mais de 500 mil a que este centro hospitalar dá assistência também padeçam desta doença. Os dados mais recentes apontam para a realização de apenas cinco amputações por ano, quando a expectativa é que pudessem chegar às 75.

Todos os anos, a Consulta Multidisciplinar de Pé Diabético do CHTS realiza, em média, mais de 3.500 consultas, sendo 800 primeiras consultas.

Neste novo espaço, totalmente dedicado aos diabéticos e doentes que sofrem de pé diabético, haverá consultas médicas, de enfermagem, de podologia e uma sala de tratamentos. Foi ainda criado um laboratório de suportes plantares que recebeu o nome de Dr. José António Freire Soares, médico e presidente da Liga dos Amigos do Hospital Padre Américo.

“É possível manter os diabéticos a caminhar sobre os dois pés a vida toda”, acredita Maria de Jesus Dantas

O pé diabético é a principal causa de ocupação das camas hospitalares pelos diabéticos,

consumindo importantes recursos de saúde. Em média causa 2.000 internamentos por ano em Portugal.

Ainda que os números estejam a baixar, nos últimos 10 anos o foram realizadas, em média, 1600 amputações por ano devido à diabetes. E os custos de uma amputação rondam os 25 mil euros.

Os dados foram avançados por Maria de Jesus Dantas, cirurgiã que venceu o Prémio Bial Medicina Clínica 2016 e responsável pela Consulta Multidisciplinar de Pé Diabético do CHTS.

Na cerimónia que marcou o 20.º aniversário da consulta do pé diabético no centro hospitalar e a inauguração da clínica, a médica lembrou a luta diária contra a amputação e salientou que a bandeira de terem a mais baixa taxa de amputação desde 2011 traz mais responsabilidade. “É possível manter os diabéticos a caminhar sobre os dois pés a vida toda”, sustentou.

Falando dos números para a região, Maria de Jesus Dantas adiantou que num centro hospitalar que abrange mais de 500 mil habitantes é expectável a existência de 65 mil diabéticos. “Nos nossos 65.000 diabéticos, 5850 poderão ter infecções no pé e seriam expectáveis 75 amputações/ano, 38 das quais major”, referiu. Mas o CHTS tem taxas de amputação abaixo da média nacional e da do Norte do país (0,95/100.000 habitantes). “Em 2015 foram cinco os doentes que sofreram amputação major e nenhum dos amputados era proveniente da consulta”, destacou.

Também o presidente do conselho de administração do CHTS, Carlos Alberto, elogiou o trabalho realizado de forma multidisciplinar que fez aparecer resultados. “Somos o melhor hospital do país nesta área. Não me canso de dizer que tratamos mais de 520 mil pessoas, 5% da população portuguesa. Há poucos hospitais deste país com esta carga assistencial”, frisou. “Com pouco dinheiro fizemos uma clínica digna. Se já tínhamos bons resultados depois disto podemos esperar mais”, afirmou ainda.

Este “serviço inovador que permite ter a taxa mais baixa de amputações do país é um orgulho para a região”

Durante a cerimónia, Rui Carvalho, presidente do Grupo de Estudos Português do Pé Diabético, parabenizou a equipa pela projecção nacional que deram a esta causa e que culminou com o prémio Bial. “Sou responsável pela consulta mais antiga do país, no Centro Hospitalar do Porto, e não entendo porque é que o maior hospital do país, o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, não tem uma consulta multidisciplinar do pé diabético como há aqui no Norte para diminuir a taxa de amputações”, confessou.

Já Conceição Bacelar, em representação da Administração Regional de Saúde do Norte, realçou a importância do exemplo deste serviço, mas apelou a uma intervenção ainda mais precoce. “Gostava de ver igualmente inauguradas as consultas de pé diabético de nível um, que são aquelas que iam diminuir os números desta consulta”, disse, referindo-se aos cuidados de saúde primários. “Têm aqui 800 primeiras consultas por ano, o que equivale a 800 pessoas com problemas de diabetes muito graves. É importante que haja estes lugares dignos e com conforto de nível três, mas a prevenção tem que começar antes”, defendeu.

Ter neste centro hospitalar um “serviço inovador que permite ter a taxa mais baixa de amputações do país é um orgulho para a região”, destacou a vice-presidente da Câmara Municipal de Penafiel, Susana Oliveira.

Doentes estão satisfeitos

Para os doentes, a inauguração da clínica só pode ser uma boa notícia. Marcos Costa, de 58 anos, tem problemas causados pela diabetes há cinco anos e há dois que toma insulina. “Apareceram-me umas feridas no pé e vim cá em Dezembro. Tive que ser operado e ando aqui em consultas e curativos”, explica o residente em Felgueiras. Para este utente, este serviço tem um “bom +”. “Este novo serviço é importante”, garante.

Também de Felgueiras, António Pinto, de 51 anos, é seguido na consulta multidisciplinar desde os 38 anos. “Apareciam-me calos nos pés e depois comecei a ter feridas. Já fui operado três vezes a cada pé”, conta. “Eu tinha um café e passava 16 a 17 horas em pé. Tive que me reformar. Mas a dra. Jesus fez milagres”, garante o utente. “O tratamento aqui já é bom, mas acho que com a clínica vai ser melhor”, antecipa.