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  por: Roberto Bessa Moreira  
Suspeito de atear fogo está detido
Incêndio criminoso mata dois homens em Parada de Todeia
Dois homens morreram na sequência de um incêndio com origem criminosa. Fausto Borges, 84 anos, e Manuel Barbosa Ferreira Leão, de 68, não resistiram às chamas e ao fumo que invadiram a sua habitação, em Parada de Todeia, Paredes.

 Os cunhados foram retirados já sem vida, na madrugada de domingo, pelos Bombeiros de Cête da Casa do Fundo, um palacete de 1625, antiga propriedade do bispo D. António Barbosa Leão, tio-avô de Manuel Barbosa Ferreira Leão.

O fogo terá sido ateado por José Augusto Correia, de 42 anos, caseiro das duas vítimas mortais. O suspeito foi detido na casa dos pais, junto ao apeadeiro da CP daquela freguesia, e vai ser presente a primeiro interrogatório judicial na segunda-feira.

Vítima atendeu telefone antes de morrer

Manuel Barbosa Ferreira Leão e Fausto Borges partilhavam a Casa do Fundo, na rua Fonte D'Ana, desde que a irmã do primeiro e mulher do segundo morreu. Na habitação, datada do século XVII e construída à base de tabique e madeira, residia ainda um casal que ocupava parte do segundo piso. "Eles viviam aí há cerca de 15 anos. Mas, há um ano e meio, separaram-se e só ficou na casa o Augusto", refere José Leão, sobrinho de Manuel.

E desde o divórcio que o comportamento de José Augusto Correia se alterou ao ponto de ter tentado o suicídio. Na madrugada de domingo, o suspeito começou por atirar móveis, vasos e outros objectos de decoração pela janela para depois pegar fogo à casa. Antes, ainda telefonou à ex-mulher a revelar as suas intenções. "A esposa confirmou-me o telefonema. Foi mesmo na altura que o fogo terá tido início", afirma, ao VERDADEIRO OLHAR, o presidente da Junta de Freguesia de Parada de Todeia, Álvaro Pinto.

As primeiras chamas foram detectadas, por volta da 1h10, por uma vizinha que, de imediato, telefonou para a Casa do Fundo para dar o alerta. "Foi o meu tio Manel que atendeu a chamada. Mas disse que já não ia ter tempo de fugir", conta António Leão, outro sobrinho.

Nesta altura, Manuel Barbosa Leão Ferreira já se estava a dirigir ao quarto de Fausto Borges para ajudar o cunhado a fugir, mas o intenso fumo e calor travou-lhe as intenções. "Os dois corpos foram encontrados no quarto do segundo piso", esclarece o comandante dos Bombeiros Voluntários de Cête, Rui Gomes. Fausto Borges não chegou a sair da cama e Manuel Barbosa Ferreira Leão acabou por falecer deitado no chão do quarto do cunhado.

O incêndio foi dado como extinto já depois das 3h00, após o trabalho de 31 bombeiros apoiados por 11 viaturas. A esta hora os inspectores da Polícia Judiciária ainda não tinham chegado ao local.

José Augusto Correia ficou em prisão preventiva

O homem suspeito de ter ateado o fogo que matou dois homens em Parada de Todeia ficou em prisão preventiva. A medida de coacção foi decretada pelo juiz de instrução criminal do Tribunal de Paredes, já depois das 22h30 de segunda-feira.

José Augusto Correia chegou ao Tribunal perto das 17h00, acompanhado de dois inspectores da Polícia Judiciária, sem que estivesse ninguém à sua espera. O homem de 42 anos entrou algemado e sem emitir qualquer palavra no curto percurso entre o parque de estacionamento e a porta do Tribunal. Já depois das 19h00 começou a ser ouvido em primeiro interrogatório judicial, que se alongou por mais de três horas.

 José Augusto Correia está já a cumprir serviço comunitário por detenção de uma arma ilegal, que utilizou para ameaçar a ex-mulher e mãe do seu filho de 19 anos. A pena, de 150 horas, estava a ser cumprida ao serviço da Junta de Freguesia de Parada de Todeia. "Ele limpava as ruas e fazia outros trabalhos que eram necessários", explica o autarca local.

Álvaro Pinto menciona ainda que José Augusto Correia está a receber acompanhamento psicológico numa clínica de Paços de Ferreira. "Via-se que era um homem com problemas psicológicos e que estava a lidar mal com a separação da mulher. Mas, até agora, tinha tido sempre um comportamento impecável connosco", frisa.

José Augusto Correia está desempregado após várias experiências em empresas ligadas à construção civil e à electricidade.


Agrediu bombeiros

Não foi a primeira vez que os Bombeiros de Cête foram chamados à Casa do Fundo. Desde o divórcio que José Augusto Correia telefonava regularmente para o quartel da corporação ou para o Núcleo da Cruz Vermelha da Sobreira com pedidos de auxílio que, na maioria das vezes, se revelavam falsos.

Numa das ocasiões, o homem de 42 anos agrediu os bombeiros com vasos e outros objectos que ia atirando à medida que os voluntários se aproximavam. O caso chegou ao Ministério Público.
Noutro caso, porém, José Augusto Correia tentou mesmo suicidar-se e foi conduzido ao Hospital Padre Américo, em Penafiel.


Vítima era descendente da família real

Manuel Barbosa Ferreira Leão era uma pessoa bastante querida na terra. Reconhecido pelo seu conhecimento e cultura, escrevia artigos históricos em alguns jornais locais e chegou a ocupar o cargo de secretário da Junta de Freguesia de Parada de Todeia. "Gostava muito de escrever", lembra o sobrinho António Leão, hábito que mantinha desde os tempos em que estudou no seminário Diocesano do Porto, no qual foi por duas vezes premiado como melhor aluno.

Segundo a árvore genealógica da família, Manuel Barbosa Ferreira Leão descende da família real portuguesa, através da Casa dos Duques de Bragança


Casa do Fundo preocupava bombeiros

A Casa do Fundo era uma das mais antigas do concelho de Paredes. Construída em 1625 só por duas vezes foi objecto de reformas: em 1737 e, mais recentemente, em 1906.

O mobiliário ainda era do tempo da sua fundação, tal como alguns dos livros depositados na biblioteca da casa, que começou a ganhar forma quando o bispo D. António Barbosa Leão, tio-avô de Manuel, era o proprietário do imóvel.

A Casa do Fundo era, igualmente, uma das habitações que mais preocupações suscitava aos Bombeiros de Cête. "É uma casa muito alta, de difícil acesso e com materiais bastante inflamáveis. Já temíamos que isto pudesse acontecer", revelou o comandante Rui Gomes.

Hoje, a Casa do Fundo será alvo de uma vistoria efectuada por uma equipa da Protecção Civil da Câmara de Paredes para aquilatar os estragos provocados pelo incêndio. "As paredes exteriores parecem estar seguras. Em pior estado está o soalho", defende o comandante dos Bombeiros.

 
 
 
 
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