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Em Lousada há uma escola em que os alunos são ouvidos e consultados para apontar problemas e encontrar soluções. O modelo da República dos Jovens, que começa dentro de cada turma e leva os alunos a assembleias com a direcção da escola, foi agora premiado, com a Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste a ser considerada “Amiga da Criança”, numa iniciativa da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) e da Leya Educação.

“As nossas sugestões são ouvidas”

Sentam-se à mesa como se fossem deputados. Cada um representa uma turma, do 5.º ao 12.º ano. À frente têm papéis com notas sobre o trabalho feito e com algumas propostas que pretendem ver desenvolvidas.

Um a um falam dos projectos que conseguiram realizar ao longo do ano lectivo, desde teatros, tratamento de canteiros da escola, plantações de árvores, acções solidárias, acções anti-bullying, tardes de convívio com idosos até exposições de sensibilização ambiental, e enumeram as acções de recolha do lixo realizadas dentro e fora da escola. O balanço é sobretudo positivo, apontam os “guias dos guias”.

“Este projecto dá voz e importância aos alunos”, “as nossas sugestões são ouvidas”, “este projecto cria dinamismo na turma” e “temos regras a cumprir mas também temos a nossa opinião e aqui podemos expressá-la” foram algumas das expressões utilizadas para resumir os benefícios do República dos Jovens. Outros alunos aproveitam para explicar o que correu mal e os problemas que existem dentro das turmas.

Estamos numa “Assembleia Geral dos Guias”. O que é isto? Uma das estruturas de decisão do projecto criado na Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste, em Nevogilde, que visa desenvolver o sentido cívico e envolver os alunos na tomada de decisão.

E esta foi só a primeira parte. Na segunda, os alunos apontam problemas e lançam propostas a debate.

Querem mais modalidades para equipas femininas no desporto escolar ou mais opções de cursos profissionais. “Continuamos com lixo em locais inapropriados. Pensamos em cada turma ter uma hora para recolha de lixo por semana”, defende um aluno. “O que é preciso é mudar mentalidades”, refere outra. “Um gesto vosso pode mudar o comportamento dos colegas. Se virem lixo no chão apanhem e dêem o exemplo”, pede Alexandre Reis, docente responsável pelo projecto.

Mas o debate não fica por aqui. Há quem defenda a necessidade de mais espaços abertos aos alunos em dias de chuva, como corredores e até a sala de informática. Gera-se o debate e o burburinho. “A sala de informática ficava logo destruída”, acredita uma aluna. Surge a ideia de abrir a cantina como segundo polivalente. “Ninguém vai abrir espaços para ficarem cheios de lixo como o polivalente. Primeiro é preciso mudar isso”, argumenta a directora da escola.

“Queríamos que os alunos sentissem que a escola é deles, que têm voz activa, que são elementos decisores”

A República dos Jovens começa dentro de cada turma com pequenos grupos liderados por um guia. Esses quatro a cinco guias, juntamente com o director de turma, formam o conselho de guias onde são discutidos problemas e encontradas soluções. Desses alunos sai um “guia dos guias” que representa a turma na Assembleia Geral dos Guias. No início do ano houve também um plenário de guias que reuniu todos os guias das 30 turmas no espaço da cantina.

O projecto foi implementado pelo segundo ano, nascendo no seio do Plano de Promoção para o Sucesso Escolar, e envolve os cerca de 700 alunos da escola. “Eles próprios redigiram parte do regulamento interno deste projecto, elaboraram o Código de Conduta e têm mais de 30 projectos que foram levados a cabo e que mostram a sua participação na vida da escola”, sustenta a directora do Agrupamento de Escolas de Lousada Oeste, Luísa Lopes. “Esta foi uma das formas que a escola arranjou para, de uma forma democrática, fazer com que os alunos pudessem intervir nas várias estruturas da escola”, explica.

Este prémio de “Escola Amiga da Criança” veio provar “que vale a pena os professores e os alunos fazerem a diferença numa escola”, mas trouxe também mais responsabilidade e elevou a fasquia, salienta a directora.

Luísa Lopes espera que este projecto sirva de motivação num agrupamento que está num meio desfavorecido e tem muitos alunos apoiados pela acção social escolar mas que mesmo assim consegue boas notas nos exames nacionais.

“Queríamos que os alunos sentissem que a escola é deles, que têm voz activa, que são elementos decisores”, afirma Alexandre Reis. O docente que coordena a República de Jovens lembra que estão a fazer “mudança de mentalidades”, algo difícil. Os resultados vão sendo sentidos nas pequenas coisas, como na mudança de comportamento e na recolha do lixo. “Estavam proibidos de vir para o corredor do piso superior comer pelo lixo que ficava no chão. A partir do momento em que pediram um voto de confiança vimos que passaram a ter esse cuidado”, explica. Este projecto também estimula a participação noutras iniciativas como o orçamento participativo das escolas. “Há mais projectos apresentados e muita gente a votar. No ano passado, havia duas propostas mais significativas, uma para intervenção nas casas de banho e outra para a colocação de uma mesa de matraquilhos e, para nossa surpresa ou não, ganhou, e por larga maioria, a proposta de intervenção nas casas de banho”, dá como exemplo Alexandre Reis.

“Se dermos espaço de participação e decisão eles percebem quais são os seus direitos e deveres e começam a adquirir responsabilidade cívica e o hábito de participação democrática”, acredita o professor.

“Os alunos são muitas vezes abafados. Temos a consciência de que estamos a dar o exemplo e temos que transmitir às outras escolas que os alunos são importantes”

Os alunos concordam. Francisco Torres, do 12.º B, esteve a moderar a sessão da Assembleia Geral dos Guias e não tem dúvidas de que este projecto tem muitos pontos positivos.

“Os alunos sentem que têm um papel activo na escola e vêem materializadas a sua opinião e as suas ideias. É importante haver esta ligação entre a direcção e os alunos e ouvir aqueles que são a base de qualquer instituição escolar”, defende o jovem.

Francisco Torres aponta, como principais mudanças conseguidas, a alteração do Código de Conduta, que “restringia muitos os alunos”, e o facto de agora ser possível circular e lanchar nos corredores do primeiro andar.

Enquanto “guia dos guias” da sua turma é o representante máximo da turma e serve como porta-voz junto dos órgãos administrativos. “Os alunos são muitas vezes abafados. Temos a consciência de que estamos a dar o exemplo e temos que transmitir às outras escolas que os alunos são importantes e que é possível os alunos também comandarem os destinos da escola”, defende o aluno.

“Este prémio é um reconhecimento do que já sabíamos. Nós sabemos o valor que tem este projecto”, afirma Francisco Torres. Xénia Pereira, do 9.ºA, tem opinião idêntica. “O prémio é só um prémio. Acho que o importante é este trabalho que se faz na escola”, sustenta a guia dos guias.

As mais-valias que vê no projecto são este contacto mais directo com a direcção e o facto de terem mais voz e se tornarem mais activos na escola. “Antes nem sequer nos lembrávamos de participar porque não nos era dada essa oportunidade. Quando cheguei aqui, no 5.º ano, vi muitas coisas erradas e desde que começaram este projecto a escola está muito diferente, até nas relações entre alunos e nos comportamentos. Há mais respeito uns pelos outros”, conta.

Ana Rita Pedrosa, de 12 anos, e Pedro Pinheiro, de 13 anos, são dois dos guias da turma do 7.º A. Também eles reconhecem a importância da República dos Jovens. “É um projecto que beneficia os alunos porque podemos dar opinião sobre coisas importantes. E criam-se relações diferentes dentro da turma e vamos tentando resolver o que está mal”, diz Ana Rita. “É um projecto inovador que dá voz aos alunos e desde o ano passado já fizemos várias melhorias. Podemos comer cá em cima e temos um cartão electrónico que carregamos todos os meses e faz com que não tenhamos de trazer dinheiro”, dá como exemplo Pedro Pinheiro.

Prémio contou com 941 projectos candidatos

O prémio lançado pela Confederação Nacional das Associações de Pais, com o apoio da LeYa Educação, visa distinguir escolas que “concebem e concretizam ideias extraordinárias, contribuindo para um desenvolvimento mais feliz da criança no espaço escolar”.

A esta primeira edição concorreram 544 escolas com 941 projectos. Ao todo, 495 projectos foram distinguidos e obtiveram o selo Escola Amiga da Criança, sendo que esta escola de Lousada ficou no leque das dez finalistas e conquistou o prémio principal na categoria de formação cívica e vai receber cinco mil euros em livros para a biblioteca da escola.

Presente na Assembleia Geral dos Guias realizada esta terça-feira, Américo Rodrigues, presidente da FAPEP – Federação das Associações de Pais do Concelho de Paredes e membro do conselho executivo da CONFAP, salientou que o grande objectivo deste projecto “era demonstrar que é possível existir dentro das escolas mais do que os rankings, o currículo e os programas para nota”. “Com este projecto conseguimos envolver a comunidade escolar. Estávamos a pensar receber cerca de 100 candidaturas mas recebemos cerca de mil”, confessa.

Para a CONFAP, o importante não é o prémio final, mas sim a entrega a 495 escolas do selo de Escola Amiga da Criança que mostra que “as escolas olham pelos alunos”.

“Muitas vezes é ouvida a comunidade e esquecemo-nos de ouvir os alunos. Aqui os alunos são ouvidos”, realça.