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Há 20 anos, a 18 de Abril, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, dava-se o arranque de um projecto ambicioso que se propunha a alavancar o território tendo por base um património com cerca de mil anos. Dez anos depois, a Rota do Românico apresentava-se ao público e começava a deixar marcas com a recuperação de vários monumentos, primeiro apenas no Vale do Sousa e, mais tarde, num projecto alargado a 12 municípios.

Hoje, a Rota do Românico é um elemento de coesão e desenvolvimento do território que mexe com a economia local, garante Rosário Machado, directora do projecto, em entrevista ao Verdadeiro Olhar.

O projecto, que agora integra 58 monumentos, já conquistou vários prémios e, anualmente, traz vários milhares de visitantes à região.

A directora da Rota do Românico salienta que 20 anos ainda é pouco para avaliar resultados de um projecto de turismo cultural que se pretende de médio e longo prazo. Mas garante que os indicadores actuais mostram que têm sido bem-sucedidos.

A grande aposta na salvaguarda deste património passa por atrair cada vez mais turistas e educar as gerações futuras para que se tornem em guardiãs do românico da região.

 

Estão a ser assinalados os 20 anos do nascimento da Rota do Românico e os 10 anos de apresentação do projecto ao público. O que mudou nestes 20 anos?

Acho que mudou muito mas, ao mesmo tempo, o que fizemos foi realçar algo que já cá estava há muito tempo e que mostra o valor enorme que este território tem. O que mudou foi a forma de trabalhar e acho que somos reconhecidos por isso. Não há assim tantos projectos que tenham este grau de reflexão e de maturidade, apesar de achar que 20 anos ainda é pouco tempo. E tem o pormenor de serem 10 mais 10. São 20 anos desde que a ideia surgiu por vontade dos autarcas e da administração pública central e que se começou a montar uma hipótese do que poderia vir a ser um projecto, algo que levou 10 anos a ser pensado e reflectido, a errar, a voltar atrás, a seguir em frente… e que só ao fim de 10 anos foi apresentado ao público assumindo-se claramente que estávamos em condições de iniciar uma rota turístico-cultural num património que já está quase há mil anos neste território e que agora foi “preparado” também para ser visitado na lógica do turista e do visitante.

O Vale do Sousa, o Tâmega e o Douro Sul mudaram no sentido em que lhes foi reafirmado um elemento distintivo, que foi o seu elemento patrimonial de excelência e a sua história que está ligada à fundação de Portugal e de que o património é o maior tesouro e o maior testemunho.

A Rota do Românico já é o motor de desenvolvimento da região que era esperado ou ainda há um longo caminho a percorrer?

Há um caminho muito longo a percorrer, não tenho dúvida nenhuma, e se assim não fosse o nosso trabalho de equipa e de responsabilidade perante os decisores tinha falhado.

Cada dia que passa vejo a Rota do Românico com muito mais futuro do que no dia anterior. Chegamos a um ponto em que, assumo, gostaria de estar mais à frente, acho que isso é natural, mas em que também assumimos que a Rota marca o desenvolvimento deste território. Se calhar precisamos de mais comunicação e de passar aquilo que são os indicadores que vamos tendo para mostrar que isso está a acontecer. Mas acho que há um conjunto de actores locais do território que se vão apercebendo que a Rota do Românico está a mexer com a economia e com o desenvolvimento do território.

A Rota do Românico já deu “o salto” ou há algum patamar a que ainda queira aceder?

Há patamares. Queremos subir cada vez mais o número de visitantes. Há 10 anos atrás costumava dizer, e acho que o disse a 18 de Abril de 2008, que a Rota atingia o seu primeiro objectivo no dia em que toda a população do seu território soubesse o que era a Rota do Românico, e que toda a população conhecesse os monumentos, pelo menos os de proximidade. Esse é um caminho que ainda estamos a percorrer. O primeiro patamar se calhar é muito ambicioso e, por isso, ainda não o atingimos, mas estamos no bom caminho. Temos um território densamente povoado e é essa a maior riqueza da Rota, as pessoas. Falta esse objectivo maior.

Num território disperso e com características distintas de concelho para concelho, a Rota do Românico veio dar maior coesão à região?

Quem trabalha com este território sabe que é claramente distinto. Quando se pensou qual é o elemento distintivo que caracteriza o território todo e que tem força para fazer essa coesão chegou-se ao românico. O único elemento que é coeso, que tem um espectro temporal muito forte é o património e este ADN de humanização deste território.

A diversidade do próprio território também enriquece a Rota do Românico. Porque se há esse elemento que o une e que o cose depois é na diversidade que esse elemento ganha características diferentes.

Quem visita a Rota do Românico consegue ter a percepção dessa diversidade – com o vale, a serra, os rios – e é nessa diversidade que a Rota ganha força. É o elemento de coesão do território.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

 

Tudo começou por uma estratégia, no papel, de seis municípios. Só mais tarde vieram as obras e a divulgação dos monumentos. Qual foi a fase mais difícil do projecto? Foi pôr todos a remar para o mesmo lado?

Vão passando momentos mais difíceis e outros menos difíceis. Quando se começou, em 1998, o território do Vale do Sousa sofria um plano de desenvolvimento integrado e assumia-se que este território precisava de vários aspectos para mudar.

Era crucial um projecto que mexesse com a mentalidade das pessoas, que mexesse com aspectos de formação e com a auto-estima desta gente, porque este território tinha uma conotação menos boa apesar de ser um território muito rico.

Havia dois elementos fundamentais: melhorar a auto-estima das pessoas e mudar a imagem que este território tinha interna e externamente, acrescentando-lhe um elemento distintivo.

Quando se começou havia a ingenuidade, como as crianças, de não sabermos o que tínhamos pela frente. Sabia-se que claramente o território tinha necessidades e havia vontade de mudar, mas havia a ingenuidade de não saber o que ia dar. A Rota do Românico foi percursora nesse sentido e é inovadora mesmo a nível internacional. Não havia um estudo de caso a que nos agarrarmos. Era o ‘vamos ver como é que isto resulta’.

Essa é uma fase muito especial, mas não é tão dura, porque ainda não havia a noção de responsabilidade. A responsabilidade passou pelos autarcas, a administração local desconcentrada, as entidades ligadas ao património e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, ao assumirem que iam investir num projecto que poderia dar frutos a médio e longo prazo. Esse era o maior risco.

“Claramente, o maior factor crítico de sucesso foi os autarcas acreditarem no projecto”

Houve outras fases mais criticas?

Uma fase especial, que é talvez das fases mais criticas, no bom sentido, é quando em 2003 começamos com as obras e assumimos que requalificar o património é um aspecto fundamental. Se queríamos basear um projecto no património, tínhamos que o requalificar. E também não era fácil arranjar verbas, não foi fácil, mas conseguiu-se pôr as entidades que tratavam do património, e na altura havia várias, com uma vontade comum. Esse foi um passo difícil mas decisivo.

E depois outro passo foi os autarcas do Vale do Sousa à época assumirem ‘esta é uma estratégia nossa’, mesmo não tirando proveitos, porque assumiu-se que era um projecto a médio e longo prazo em que se iria caminhando lentamente.

E assumir uma questão crucial: a administração local ia substituir-se à administração central. Quando iniciou, agora não é bem assim, 99% dos nossos elementos patrimoniais eram propriedade do Estado e da Igreja. A administração local ia, no fundo, tomar a responsabilidade de algo que cabia à administração central fazer em nome de um projecto maior. Esse foi um passo decisivo e foi muito consciente e ainda hoje é consciente.

Sente que os autarcas acreditavam no sucesso deste projecto no início?

Sim. Acredito que muito por obra das pessoas que tinham na altura responsabilidades na Comissão de Coordenação, o engenheiro Braga da Cruz foi fundamental e depois a doutora Cristina Azevedo. Claramente, o maior factor crítico de sucesso foi os autarcas acreditarem no projecto.

Foi um início lento, já que a caracterização dos monumentos, a estruturação da Rota e o estudo sobre os possíveis visitantes só arrancou cinco anos mais tarde. Tinha mesmo que ser assim?

Tinha mesmo que ser assim. Acho que se não tivesse sido assim a Rota do Românico tinha sido mais um projecto que tinha durado o tempo de um quadro comunitário de apoio e tinha terminado.

Quem trabalha em desenvolvimento regional sabe que o tempo é crucial. Nós, na equipa, dizemos muitas vezes que a Rota tem pouco tempo ainda. E às vezes na brincadeira dizemos que a necessidade de construção é quase simbolicamente o tempo que demorava em média uma igreja românica a ser construída, cerca de 200 anos. Acreditamos que o facto de serem construídos desta forma sólida é o que faz com que estes elementos patrimoniais ainda estejam erguidos. E sem dúvida que o tempo é um elemento chave para que o projecto seja o que é. Até porque lhe permite estes avanços e recuos. Permite ter a noção de tempo e de que há muito para fazer ainda.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

 

Outra particularidade é permitir-nos ir preparando sempre os próximos quadros comunitários de apoio. A Rota do Românico é dos poucos projectos que atravessa quase desde o primeiro quadro comunitário até ao actual. E vai-se consolidando cada vez mais ao longo do tempo. E este tempo é crucial.

Se tivéssemos tido mais tempo para reflectir não teria sido pior. Mesmo assim, tivemos 10 anos a preparar-nos, a ganhar estrutura.

Recuperar os monumentos exigiu um grande volume de investimento, que foi acontecendo de forma faseada e graças a fundos comunitários. Tem noção de quantos milhões já foram investidos neste projecto?

Temos tudo quantificado até Dezembro de 2016, que foi o fim do quadro comunitário anterior. A Rota do Românico chegou, em termos de investimento total, ou seja, da administração local, das autarquias que a integram, de fundos comunitários, que é o grande bolo, de fundos nacionais, como fundos de turismo ou outras fontes de financiamento, aos 24 milhões de euros de investimento.

“É crucial comunicar a Rota do Românico”

Estão actualmente investimentos em curso. Há mais intervenções já agendadas?

Neste momento estamos com duas candidaturas em execução. Uma de cerca de 1,2 milhões e outra de perto de 2,5 milhões de euros que abrange este centro interpretativo em Lousada, o de Abragão e alguns elementos patrimoniais, como Soalhães ou Paço de Sousa.

Há pequenas intervenções a ser previstas e uma componente de recuperação dos imóveis do Tâmega em que a entidade promotora da candidatura foi a Associação de Municípios do Baixo Tâmega através da Rota do Românico e que é cerca de 1,2 milhões de euros.

No final de 2017, vimos aprovados dois projectos ao Turismo de Portugal, uma das candidaturas de cerca de 200 mil euros, para promoção e para a parte material, e outra no valor de 400 mil euros para recuperar São martinho de Moures em Resende, ao nível do património móvel, e a Ponte do Arco no Marco de Canaveses, que tem um valor patrimonial significativo e precisava de intervenção urgente.

Temos em perspectiva apresentar uma nova candidatura na área do Património Cultural. Esperamos que essa medida seja novamente reforçada. Queremos avançar com uma obra que tem a ver com este centro, que é a Praça do Românico, numa parceria com o município de Lousada.

E há um conjunto de imóveis que ainda estão a precisar de intervenção, nomeadamente Ancede, em Baião, e novos imóveis e envolventes de imóveis que entendemos que são cruciais para a valorização do património e também ao nível do serviço educativo. Também precisamos de investir na comunicação. É crucial comunicar a Rota do Românico. Podemos fazer coisas muito bonitas mas se ninguém sabe e ninguém conhece…

No âmbito do PROVER, a CIM do Tâmega e Sousa está a desenvolver um projecto âncora transversal, muito na continuidade do projecto Palcos do Românico, que entendemos que é uma forma interessante de capacitar em termos culturais o território da Rota do Românico.

A Rota começou por 21 monumentos e apenas no Vale do Sousa. Hoje estamos a falar de 58 imóveis (perto de serem 59) em 12 municípios dos vales do Sousa, Douro e Tâmega. Esta integração de novos monumentos, em 2010, veio dar escala e peso à Rota do Românico?

Sem dúvida. É engraçado porque o primeiro estudo aponta 17 elementos patrimoniais, em 1998. Em 2004, o grande estudo que é ainda hoje a nossa matriz a nível de plano de acção aponta para 21 e é a partir dos 21 que começamos. E hoje são 58, sendo que há mais que um pedido de integração, além do Paço de Dona Loba, que é pertinente que entre. Há vários casos que os municípios estão a pedir a integração na Rota mas também a sua classificação, porque alguns deles nem sequer estavam classificados, nomeadamente uma ponte em Paredes, outra no Marco de Canaveses e o Mosteiro da Ermida em Baião.

Há aqui uma lógica de integração de novos elementos patrimoniais na Rota. Desde logo é obrigatório que sejam elementos classificados pelo Ministério da Cultura. Segue-se uma decisão da comissão científica, um estudo desses elementos patrimoniais, e só depois é publicitada a sua integração num congresso científico, para legitimar.

Passar de 21 para 58 monumentos dá corpo à Rota. Quando falamos no Românico, e no românico do Norte de Portugal, é interessante perceber que o que aconteceu em 2010, com a integração dos territórios do baixo Tâmega e do Douro Sul, é voltar a um tempo administrativo do território de Entre Douro e Minho. Ou seja, voltarmos à coesão de um românico com características semelhantes em termos arquitectónicos e escultóricos.

Os colegas quando fazem visitas acompanhadas a Paço de Sousa nunca podem deixar de falar de Cárquere, em Resende, porque os Ribadouro são senhores de Paço de Sousa até Resende. Estes elementos patrimoniais estão ligados. E esta ligação histórica, estilística e patrimonial ganhou uma força muito grande com esse alargamento.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

“A Rota do Românico é o que é porque tem uma equipa que vestiu e veste a camisola”

Essa escala trouxe também mais dificuldades ou exigiu um esforço redobrado?

Sim. Mas a Rota do Românico defende acima de tudo o seu território e o seu património numa lógica de que o património é o testemunho maior das pessoas que ocuparam este território. Daí assumirmos uma responsabilidade muito grande. A nós coube-nos salvaguardar uma herança patrimonial.

O facto de alargarmos o território alargou a responsabilidade e o trabalho. Há aqui um esforço acrescido mas também há uma vontade acrescida e há um sentido maior, esta força deste património comum.

É o nosso trabalho e fazemo-lo com muito gosto. Acho que mesmo nas dificuldades somos uma equipa excepcional. Os meus colegas fazem um esforço excepcional e a Rota do Românico é o que é porque tem uma equipa que vestiu e veste a camisola. Não somos muitos, somos seis pessoas, mas temos uma dedicação muito grande ao que fazemos e gostamos muito do que fazemos.

Há cerca de sete anos dizia em entrevista ao nosso jornal que a Rota do Românico tinha que auto-sustentar-se. Esse patamar já foi atingido?

Acho que existem duas perspectivas cruciais na auto-sustentabilidade do projecto. O facto de o projecto ter como objectivo fazer com que o território ganhe em termos económicos. E isso acho que o estamos a fazer embora seja um processo lento. Acho que os actores económicos do território o estão a agarrar e o Selo de Qualidade é um bom exemplo.

As taxas de ocupação do alojamento também são um excelente sinal. Nós vamos monitorizando, em parceria com a Escola de Gestão de Felgueiras do Instituto Politécnico do Porto, os indicadores que vamos recolhendo na parte económica e são muito satisfatórios. Temos indicadores que nos mostram que o gasto médio dos visitantes que vêm à Rota ronda os 400 euros, o que para nós é um indicador excepcional. A estada média também é maior do que a média da região Norte, o que significa que o facto de a Rota ser um projecto estruturado faz com que as pessoas fiquem cá mais tempo.

A questão da sustentabilidade do território leva muito tempo e há muitos factores necessários. Não é em 10 anos que se consegue e não se pode parar. Acho que está no bom caminho. Ainda não se atingiu o objectivo máximo, mas a nível de turismo não é fácil definir a linha ideal. Há quem diga que a capacidade de carga do Porto está esgotada e há quem diga que ainda tem uma margem muito grande para crescer. Nós sabemos que a Rota do Românico tem uma margem de crescimento de capacidade de carga para crescer muito grande, sendo que o touring cultural é muito diferente de outros turismos.

Ao nível do projecto, que mesmo sendo de uma entidade pública deve ser auto-sustentado ou pelo menos ter uma margem de sustentabilidade, acho que o facto de se abrir dois centros de interpretação é importante para que isso aconteça.

É altamente inovador em Portugal, e temos vindo a discutir esta questão, o compósito da operação turística poder vir a pagar ‘fees’ a quem organiza o produto, com o pagamento de serviços e taxas. E isso permite também que as entidades públicas possam ter fontes de financiamento para dar continuidade e investir em projectos desta natureza. E depois na utopia, porque não cabe a mim nem à administração local, mas porque está aberto a todo o património, é pensar que possa haver uma percentagem por exemplo do IMI ou de outro imposto nacional que possa reverter para a salvaguarda do património. É um testemunho e uma herança, temos a responsabilidade de cuidar dele e é uma responsabilidade nacional. Os autarcas da Rota do Românico dão um excelente exemplo a esse nível, mas devia ser uma preocupação nacional.

“Espero que daqui a 20 anos alguém ainda esteja a dizer que a rota tem muito para caminhar e para fazer porque é um bom sinal”

A relação com os privados já é a ideal ou falta mais trabalho nesse sentido para que haja serviços complementares à oferta turística da Rota?

Há um caminho tão grande a percorrer. Quando falamos de desenvolvimento de território não falamos só de entidades públicas. Elas só funcionam se trabalharem em simultâneo com os actores privados do território.

A Rota do Românico tem essa consciência desde o princípio. Sabíamos que para sermos um produto turístico, para sermos um motivo de orgulho, tínhamos que chamar os diferentes agentes do território, as escolas, os agentes económicos, os hotéis, os espaços de restauração. Ninguém vem dormir, almoçar ou jantar aqui, nem nos monumentos.

Essa é uma batalha ganha, porque os actores económicos, nomeadamente os ligados a este sector, olham para a Rota como um elemento altamente distintivo e querem fazer parte. Nós temos uma pressão muito grande para abrir candidaturas ao Selo de Qualidade, porque as pessoas querem ter este símbolo à porta do seu estabelecimento porque isso dá-lhes uma notoriedade diferente e dá-lhes vantagens. Acho que a esse nível atingiu-se um primeiro objectivo. Os actores económicos privados ligados ao turismo têm noção que a Rota é uma mais-valia.

Estamos no bom caminho, mas ainda há mais para fazer. Espero que daqui a 20 anos alguém ainda esteja a dizer que a rota tem muito para caminhar e para fazer porque é um bom sinal.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

 

Será inaugurado, em breve, este Centro de Interpretação do Românico na Praça das Pocinhas, em Lousada. O que é que este espaço vai trazer de novo, além de ser já um marco arquitectónico no concelho? 

A abertura dos centros de interpretação é crucial para a estratégia técnica da Rota do Românico. Nós precisamos de um ponto de partida ou de chegada que explique o que é o românico, porque é que este território tem tanto românico e como é que o românico se liga à história de Portugal.

Uma das nossas missões é explicar qual é o tempo do românico e explicar qual era a sua função. A maior parte são igrejas e pontes mas temos também os memoriais. Temos na Rota do Românico os memoriais mais antigos do mundo. São pequeninos mas têm um valor incomensurável em termos de património.

Os centros são importantes, este e o da Abragão, são desde logo ícones em termos de arquitectura. Queríamos que os centros de interpretação agregassem essa explicação, que explicassem este território, este património, este tempo, mas que ao mesmo tempo também fossem elementos patrimoniais.

Temos tendência a achar que o património é o que é antigo mas, cada vez mais, há a reflexão de que há ícones patrimoniais actuais. Queríamos criar aqui um novo elemento arquitectónico distintivo e que esse elemento patrimonial também simbolizasse o que é o trabalho da Rota do Românico. Eu acho que ninguém fica indiferente quando chega a esta praça e vê aquele portal de arco de volta perfeita.

Mas qual será a missão destes centros de interpretação?

O sentido maior do centro de interpretação do Românico é explicar a quem nos visita essa riqueza, com uma particularidade: não explicar os monumentos mas ‘obrigar’ e estimular a que as pessoas partam daqui para o território. O que não queremos de todo é que quem vem ao Centro de Interpretação do Românico em Lousada ou ao Centro de Interpretação da Escultura do Românico em Abragão diga que veio à Rota do Românico e que viu a Rota do Românico. Queremos explicar o que é, mas que as pessoas partam, que fiquem cá mais tempo e que sejam estimuladas a ir ver o território.

O edifício vai ter salas temáticas que explicam a nossa essência, porque é que o território onde estamos inseridos tem tantos edifícios e tão diversos. Na Alemanha ou França vemos essencialmente igrejas. A nossa é a única Rota que tem todos os estilos arquitectónicos, desde a arquitectura religiosa, civil, militar e funerária, que tem esta diversidade. O centro vai explicar isso e ajudar a que as pessoas quando partem já levem uma carga de informação que permita olhar para o território com outros olhos.

“A Rota do Românico tem como principal responsabilidade preservar e cuidar o que herdamos, mas a maior responsabilidade é fazer com que as gerações vindouras cuidem do que receberam. Essa é a linha crítica da rota. Se não cumprirmos isso o nosso trabalho não tem sentido.”

Recentemente anunciaram que, nos últimos sete anos, mais de 17 mil crianças aprenderam coisas sobre os monumentos e a Rota do Românico. O objectivo é que sejam estes jovens a defender este património no futuro?

É isso que acreditamos. Há dois projectos que, para nós, têm muito valor e não são visíveis. É o trabalho que fazemos com as escolas e é a produção de conhecimento que a Rota faz através do centro dos estudos, que valida e legitima o que dizemos.

O trabalho com as escolas é fundamental. E é uma aposta que acreditamos que está ganha. Mas onde temos que fazer muito caminho também. O serviço educativo conta com materiais e informação específica e o projecto pedagógico é um serviço obrigatório. É um trabalho que desenvolvemos há sete anos com os municípios e os agrupamentos escolares que trabalham com o quarto ano do primeiro ciclo. Obrigatoriamente as escolas têm que ter duas aulas de Rota do Românico, uma em contexto de sala de aula e outra em contexto patrimonial. Assim, os alunos conseguem assimilar a informação e quando chegam ao elemento patrimonial, geralmente de proximidade, conseguem perceber e transmitir os conhecimentos. Esse foi um ponto de mudança muito grande ao nível do envolvimento da comunidade e da sensibilização.

A Rota do Românico tem como principal responsabilidade preservar e cuidar o que herdamos, mas a maior responsabilidade é fazer com que as gerações vindouras cuidem do que receberam. Essa é a linha crítica da rota. Se não cumprirmos isso o nosso trabalho não tem sentido.

Sentem que esse trabalho do serviço educativo já dá frutos hoje? Há mais gente a saber o que é a Rota do Românico?

Este processo já dá claramente frutos e acreditamos que vai dar mais frutos no futuro.

Os centros de interpretação também têm como componente essencial o serviço educativo, para também poderem ser eles elementos de disseminação com a comunidade escolar destes conhecimentos.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

 

É através do público escolar que garantimos que a Rota do Românico e o património seja dignificado, cuidado e salvaguardado. Também é forma de garantir que trabalhamos para o objectivo da valorização e do orgulho, porque uma criança que sabe que tem uma igreja ou uma ponte que é do tempo de D. Afonso Henriques, da Fundação de Portugal, que foi erguida há mil anos e que a sua comunidade a cuida há mil anos é claramente uma criança que vai ter um orgulho na sua terra diferente de uma criança que não tem esta noção. Acreditar que a sua terra tem uma história muito rica e que foi importante para que um país nascesse marca a diferença futuramente.

Além disso, uma criança quando recebe informação automaticamente dissemina-a, pelo pai, pela mãe, pelos irmãos, pelos avós, pelos tios… a nível de comunicação é quase como atirar uma pedra a um charco.

Acreditamos que temos muito que trabalhar. O serviço educativo está a crescer e as solicitações a aumentar porque são os alunos que pedem.

Mas também existem muitos habitantes da região que ainda não sabem o que é este projecto. Sentem que as pessoas não têm noção da riqueza do património que têm à porta de casa?

Sinto que esse número está a crescer. É difícil chegar a toda a gente. Sentimos que as pessoas vão começando a saber e, mais não seja, questionam-se pelo sistema de sinalética. Há muita gente que ainda lê ‘rota do romano’ ou ‘rota do romântico’, mas é algo que começa a fazer parte. Este é um processo longo. 10 anos é pouco tempo para que isso acontecesse. Acreditamos que temos que passar alguns ciclos geracionais. A Rota do Românico, volto a dizer, é um projecto de médio e longo prazo e 20 anos é pouco tempo. Mas temos indicadores de que vamos no bom caminho.

“Cada vez mais as pessoas procuram touring cultural e paisagístico e quando nós conseguimos juntar o touring cultural, o património, a paisagem, a gastronomia, mais sentido e força temos como produto”

No ano passado, segundo números já revelados, foram 9.000 visitantes em grupos organizados a visitar os monumentos da Rota do Românico, e calculam-se alguns milhares fora destas contas, num recorde de visitas. Estão satisfeitos com os níveis de visitação ou é preciso mais?

É preciso aumentar, é para isso que trabalhamos. Aliás, temos definido que esse é um dos objectivos que temos. Aumentar o número de turistas.

Este primeiro trimestre já está a ultrapassar outra vez os números de visitas organizadas. São indicadores que nos vêm dar muito ânimo, porque reflectem que a missão da Rota está a ser cumprida. Com um aspecto interessante: a diversificação de estrangeiros que procura a Rota.

Cada vez mais as pessoas procuram touring cultural e paisagístico e quando nós conseguimos juntar o touring cultural, o património, a paisagem, a gastronomia, mais sentido e força temos como produto. E este território tem essa força, com vários produtos âncora debaixo do chapéu Rota do Românico.

Temos noção clara que os grupos organizados representam uma franja muito pequenina daqueles que nos procuram. Acreditamos que cerca de 70 a 75% dos visitantes não procuram a Rota do Românico em grupos organizados. Até porque a Rota foi preparada para ser feita de forma autónoma. O percurso está sinalizado para visitar os 58 elementos patrimoniais.

Há muitas pessoas a optar por visitar sozinhas?

O touring cultural não é um turismo de massas. Estamos a falar de um território grande, com o património em meios rurais e isolados. É normal não nos cruzarmos com turistas.

Isso dá-lhe um carácter de sustentabilidade maior. O touring cultural e patrimonial e de paisagem é um turismo que não esgota a capacidade de carga dos espaços, que dificilmente será atingida.

Temos fins-de-semana que temos vários grupos organizados a cruzar o território e nunca se cruzam uns com os outros. Do nosso ponto de vista é uma mais-valia e um ponto crítico de sucesso.

Em vários casos, os turistas acabam por encontrar um monumento de portas fechadas. Como é que esperam contornar essa situação no futuro?

Esse aspecto é apontado como elemento crítico, mas para mim não é assim tão crítico. Se formos a qualquer outro sítio acontece exactamente a mesma coisa. Aconteceu-me na Alemanha. Se formos ao românico palentino, a Espanha, acontece a mesma coisa.

O que apelamos, mas é sempre difícil de chegar a todos, é que quem queira visitar as igrejas contacte a Rota do Românico e nós garantimos a abertura do espaço através do contacto com as igrejas e os párocos.

A maioria dos visitantes é do mercado nacional, mas também há muitos estrangeiros a visitar a Rota. É lá fora que está o mercado de visitantes pretendido?

A Rota tem vindo a crescer significativamente e a acompanhar o crescimento do turismo cultural e patrimonial do país e da região Norte.

Para isso a comunicação é fundamental, sobretudo num mercado concorrencial tão grande.

É interessante porque tivemos o nosso primeiro grupo de japoneses em 2009 através de um operador espanhol. Este ano, temos já agendados quatro grupos de japoneses. Acreditamos que tem a ver com a nossa participação nas feiras, nomeadamente em Berlim. Nesta área é preciso semear com muita antecedência para colher frutos.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

 

Quando começamos a aperceber-nos que temos alguma procura do mercado japonês iniciamos um pequeno estudo para identificação do mercado japonês, chinês e coreano, para ver a vantagem que pode haver em investir ou não nesses mercados.

O mercado nacional é claramente o que nos procura mais, algo que é comum ao touring cultural e patrimonial do mundo inteiro. Temos uma ligação e uma procura grande do mercado espanhol, de fronteira, que tem a ver com a proximidade e com o facto de os espanhóis gostarem particularmente de património, e o mercado alemão que também começa a crescer significativamente.

Temos feito a promoção que conseguirmos para atrair visitantes. Muito do nosso trabalho nas feiras é com os operadores, para darmos a conhecer a Rota do Românico. São os operadores que trazem os grupos organizados.

“É sempre muito bom sermos reconhecidos. Então quando somos reconhecidos por entidades idóneas e nacionais ainda tem um sentido maior”

Quantas pessoas já terão passado pelos monumentos desde que abriram portas?

Contabilizados estão 77.447 visitantes/turistas, que correspondem apenas aos visitantes registados pelos serviços da Rota do Românico.

Não estão contempladas as visitas escolares e todos aqueles que, de forma autónoma, visitaram os 58 monumentos cujo valor estimamos que ronde em média os 14 mil/ano.

Em 2015 perderam alguns funcionários. Era preciso mais gente para continuar a desenvolver este projecto?

Ao contrário do que muita gente pensa, o que faz um bom projecto são as pessoas que nele trabalham. Um dos grandes factores de sucesso da Rota do Românico é que tem uma excelente equipa. Agora somos seis, já fomos bem mais. O facto de sermos uma entidade pública fez com que passássemos por um processo difícil que não permitiu que a equipa se mantivesse e que tivesse que reduzir.

Acreditamos que estamos numa altura inversa, até porque estamos numa fase final de procedimentos contratuais nomeadamente para preparar a abertura dos dois centros de interpretação.

A Rota do Românico já ganhou vários prémios, incluindo o prémio Novo Norte e o “Emblema Regional” da CCDR-N e a Medalha de Mérito Turístico do Governo português. Estes reconhecimentos vieram validar o projecto?

É sempre muito bom sermos reconhecidos. Então quando somos reconhecidos por entidades idóneas e nacionais ainda tem um sentido maior.

Lembro-me sempre, quando no segundo grande prémio que recebemos do Turismo de Portugal, de um jornalista que fazia parte do júri, Perez Metelo, ter dito que foi uma alegria ver um projecto daqueles ser submetido, porque era no Norte de Portugal, que a nível do turismo não era premiado, e por ser um projecto de base territorial e de património românico, porque a maior parte das pessoas desconhecia a riqueza do românico em Portugal. Foi um orgulho muito grande sermos reconhecidos pela entidade maior do Turismo em Portugal.

Já perdemos as contas aos prémios. Ainda no final de 2017 recebemos mais um, fomos reconhecidos pela CCDR-N como “Emblema Regional”, ou seja, como um projecto que contribuiu para o desenvolvimento da região Norte, o que é um motivo de orgulho.

Mas também são motivo de orgulho os prémios que os nossos nos dão. Já recebemos a Medalha de Ouro da Câmara de Lousada e a Medalha de Mérito do concelho do Marco de Canaveses. É sinal que os nossos nos reconhecem.

Todos os prémios valem muito porque, mais do que um troféu, dizem que o nosso trabalho é reconhecido.

A Rota do Românico faz parte da TRANSROMANICA, e eles olham para a Rota como um exemplo a seguir. A Rota é sempre chamada a mostrar o que faz. Isso também é uma forma de nos reconhecerem.

“Cada vez mais olho para a Rota com mais preocupação, mas com a mesma paixão, porque acredito muito no caminho do desenvolvimento regional”

É directora da Rota do Românico desde 2006, mas penso integra o projecto praticamente desde o início. Ainda hoje vê a Rota do Românico com a mesma paixão?

Sim, com uma paixão diferente, não posso deixar de o dizer, mas igualmente intensa. Costuma-se dizer que com filhos criados sarilhos dobrados e é um bocadinho o que eu sinto.

No início havia muito a expectativa e a vontade de irmos galgando caminho, agora as responsabilidades são muito maiores, passamos por dificuldades que também nos vão dando algum estofo e alguma noção de responsabilidade e por tristezas que nos fazem crescer. E cada vez mais olho para a Rota com mais preocupação, mas com a mesma paixão, porque acredito muito no caminho do desenvolvimento regional.

Não nasci nem cresci aqui, vim para cá trabalhar, mas cada vez tenho mais paixão por este território e acho que este território merece ser reconhecido e ser mostrado como um território que tem um valor humano extraordinário. Acima de tudo esta região merece ter um projecto como a rota do românico, mas também tem que lhe dar valor.

Foto: Fernanda Pinto/Verdadeiro Olhar

 

Algum dos monumentos lhe é mais querido, pelo trabalho de recuperação realizado ou importância histórica?

Nenhum dos monumentos me é mais querido, mas há um que para mim é muito especial porque estou ligada a ele como membro da comunidade. Vivo perto do Mosteiro de Ferreira (Paços de Ferreira), é onde vou à missa e um monumento com o qual sou confrontada todos os dias e que é de uma beleza extraordinária. Sinto que é um bocadinho meu.

Há outro elemento patrimonial que para mim é simbólico e que, ao contrário do Mosteiro de Ferreira, é muito pequenino e não tem escultura românica, que é a igreja de são Mamede de Vila Verde. Trata-se de uma igreja que teve uma das intervenções maiores ao nível da conservação e salvaguarda, em sete fases, estava em ruinas. E foi como se lhe tivéssemos dado vida. E tornou-se especial porque os altares novos foram consagrados pelo bispo D. António Francisco, numa das últimas intervenções dele, em Agosto do ano passado.

Onde é que vê a Rota do Românico daqui a mais 20 anos?

Espero ver a Rota do Românico de forma mais serena e não tão preocupada. Que alguém tenha assumido essas responsabilidades. E espero ver a Rota do Românico na perspectiva de que tem mais 20 anos pela frente e continua a prosseguir aquilo para o qual foi criada, que é salvaguardar o património e a memória e fazer disso desenvolvimento regional. E também que as novas gerações tenham orgulho e reconheçam o elemento patrimonial como seu e que tem que ser preservado por si.